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Em análise: Canonet G-III QL17

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Em análise: Canonet G-III QL17

A maré tem dado à costa Canon’s… Não por alguma razão especial, embora seja um fã desta marca, mas porque as circunstâncias da oportunidade fazem com que isso aconteça. Primeiro foi uma Canon III, seguiu-se um F1, quase ao mesmo tempo uma Canon 7 e agora uma Canonet QL17 na sua versão mais sofisticada, a GIII. Algumas já aqui estão neste blog, outras se seguirão, mas agora é tempo desta pequena maravilha, compacta, densa, precisa e cheia de coisinhas que muito me agradam.

Esta é a terceira GIII que tenho nos últimos anos (sem contar com outras Canonet), e confesso que nenhuma prioridade lhes tinha dado, tendo despachado todas; mas à terceira foi de vez, mais pelo valor que me custou do que por outra razão qualquer. Chegou-me no entanto com o obturador completamente bloqueado e pensei que tinha adquirido mais uma câmera avariada para juntar às outras que por aqui andam…! Mas, de tão nova e brilhante que estava, conclui que justa era uma intervenção que a pusesse a funcionar comme il faux… Entre avanços e recuos, percebi porque é que existe tão pouca informação na rede acerca desta câmera: extremamente difícil de desmontar o obturador…!

Mas, persistente como sou, ao fim de 3 árduos dias, entre truques e artimanhas, como nova ficou com o bónus de nenhum acidente pelo caminho! Que coisinha mais fantástica se tornou, ao ponto de ter adquirido uma capa e adaptado pequena alça de mão, tornando-se agora, invariavelmente, a minha constante companhia. Acabou por substituir a Olympus 35RD, companheira infatigável de viagem, embora faça intenções de as alternar, Konica Auto S3 incluída (as minhas 3 favoritas câmeras telemétricas de obturador central).

Recuando um pouco no tempo

Em 1961 a Canon lançou a primeira Canonet, no mesmo ano que a fantástica Canon 7, sucessora da famosa P. Esta linha sofisticada cessaria a produção em 1968 com a 7SZ, mas as Canonet’s continuariam a ser produzidas até 1982. Parece ser que a aposta no mercado das SLR’s determinou o fim daquela excelente estirpe de máquinas, mas a aposta no mercado amador com a produção das Canonet’s continuou de vento em popa, tendo sido produzidas cerca de 14 modelos. A QL17 GIII vendeu cerca de 1.2 milhões de exemplares, segundo dados da própria Canon, pelo que a aposta revelou-se bastante acertada. Ponho-me no entanto a imaginar o que a Canon produziria se continuasse com a série 7; provavelmente, quase com toda a certeza, seria um rival à altura da Leica, ao estilo japonês.

Canon Canonet G-III QL17

 

Os acrónimos é que são um pouco extensos, face à utilização simplista da câmera: Canon Canonet GIII QL17. De acordo com a marca, este modelo em particular teria sido lançada na primavera de 1972 cessando produção no verão de 82. “QL” o acrónimo de Quick Load, como referência ao sistema de carregamento de filme simplificado; “17” seria  a abertura da lente, luminosa quanto baste para uma câmera desta categoria; “G” o acrónimo de “Grade Up” como símbolo das melhorias introduzidas e III corresponderia à terceira geração de Canonet’s, depois da Canonet e da New Canonet.

Depois de terminada a produção desta linha de telemétricas, a Canon não mais voltaria a produzir este tipo de câmeras, nem, contrariamente à Nikon com a SP, voltaria sequer a produzir uns modelos de comemoração, gesto que de certeza cairia muito bem junto da comunidade.

Primeiras impressões

Mais que primeiras impressões, diria que foram terceiras impressões, pois é a terceira câmera deste modelo que me passou pelas mãos, de maneira que são impressões já algo maduras. Mas recordo que há uns anos, quando pela primeira vez experimentei uma, a densidade e compacticidade, que se traduzem nalgum peso, foram logo as minhas primeiras impressões. A Canon foi conseguindo reduzir progressivamente o tamanho destes modelos, culminando na QL17 GIII e na sua irmã, a QL19 GIII, cujas única diferenças são a lente e um par de coisas insignificantes, mas mantendo sempre a qualidade de construção e utilização de materiais com qualidade. Não se trata de um aparelho plastificado, embora nele co-habite algum plástico, mas sim de uma massa metálica muito bem construída e densa, sentindo-se o peso nas mãos. Cabe num bolso e transporta-se com alguma descrição, embora seja um pouco mais substancial que a Olympus 35RD ou a Konica Auto S3, aquelas que eu considero mais ou menos ao mesmo nível.

Detalhe da excelente lente de 40mm. Contrastada, cores saturadas e resolução aprimorada.

 

E falar desta máquina sem referir o visor, seria desvalorizar talvez uma das suas qualidades mais importantes. No visor, brilhante por sinal mas com tendência a tornar-se algo azulado, projectam-se brilhantes linhas amarelas de enquadramento que se movimentam ao compasso da focagem, compensando os erros de paralaxe. Boa Canon, é mesmo disto que gosto! Creio no entanto que a mancha do telémetro tem tendência a desvanecer; pelo menos nas minhas está bastante ténue, apesar de tudo utilizável.

Gosto particularmente do automatismo com a leitura das aberturas no interior do visor, embora preferisse que este automatismo fosse de prioridade às aberturas e não às velocidades. A Canon sempre teve esta irritante mania de priorizar as velocidades…! As minhas imagens são quase todas elas em função da abertura dependendo estas do tema a fotografar, pelo que tenho sempre que ter esta característica em mente quando utilizo esta máquina. Como alternativa, está disponível ainda o modo manual mas, achtung… cego! Ou seja, o fotómetro não funciona neste modo, pelo que a regra Sol 16 (ou 11) entra em acção, ou ainda um pequeno fotómetro de mão como alternativa. Sempre se pode também fazer a medição no modo automático, e depois passar os valores para manual.

Canon Canonet G-III QL17
Pormenor da placa com o modelo da série, G-III (3ª série) QL (Quick Load)

 

Por último, queria chamar a atenção para o seu disparo silencioso, bastante silencioso. Não tem o glamoroso som de uma Leica M, pois soa a algo metalizado que lhe dá uma sonoridade mais prática e funcional, mas que a máquina é silenciosa é, consenso generalizado na comunidade. O seu click distinto já não se nota a um par de metros, sendo esta característica bastante atractiva para captar instantâneos de rua com a sua objectiva semi-grande-angular de 40mm, bastante luminosa por sinal. Até encontrar algo melhor esta é a minha câmera de bolso, ou de mão neste caso, uma vez que com a correia que lhe adaptei vai carinhosamente pendurada.

Canonet em acção

Passei a ser um utilizador compulsivo desta pequena maravilha. Assim que vi os resultados da lente com um primeiro rolo, percebi que com ela posso ir mais longe quando comparada com uma compacta mais clássica. Sinto que estou descomprometido com as exigências mais técnicas da fotografia, com um aparelho que me permite basicamente chegar onde chegam as SLR’s mais exigentes. Qualquer instantâneo pode ser facilmente captado sem grandes preocupações, de forma discreta e rápida. Mas o melhor mesmo é esta sintonia de qualidade entre o visor, a lente e o automatismo. Perfeito…! Sem complicações.

No interior do visor do lado direito, um ponteiro mostra claramente a abertura que o fotómetro seleciona, bastando ter a mão sobre o anel das velocidades para a máquina, de forma automática, ir alterando este valor. Esta leitura está dependente de uma bateria de mercúrio, modelo PX625 de 1.35v, proibida há já algum tempo. No entanto, e em modo manual, a câmera funciona sem problemas, embora não efectue qualquer leitura de luz com ou sem baterias. E sendo actualmente bastante difícil adquirir este tipo de baterias (tive a sorte de obter umas 10 numa compra de uma Olympus Om-1N), a utilização de baterias alcalinas de 1,5v não é a aposta mais adequada, pois a carga desta vai declinando linearmente com o tempo, sendo que a determinada altura o fotómetro irá dar valores errados, principalmente em ambientes de menos luz. Existem uns adaptadores modificados que mantêm a estabilidade da voltagem quando utilizados com este tipo de pilhas alcalinas. Convém ter isto em atenção se a luz precisa é determinante.

Detalhe da lente com obturador central incluído, um Copal bastante fiável e preciso, embora de difícil acesso.

 

A lente tem uma focal de 40mm, um compromisso entre a visão estandarte e uma grande angular. Diria que para fotografia de rua, é uma das focais ideais. Muitas vezes parece-me que a 35mm é demasiado intrusiva e a 50mm um pouco além do ideal, considerando a escolha de uma única focal. A fazer um compromisso, 40mm parece-me bastante ajustada, e nem me tenho dado mal com esta focal. A lente é bastante luminosa. Mais luminosa numa telemétrica de obturador central, só mesmo a Yashica Lynx 14 com a sua excelente lente 1.4, uma excepção neste mundo de telemétricas de objectiva fixa. E a qualidade é bastante acima da média: razoavelmente contrastada melhorando à medida que se fecha o diaframa é também nítida quanto baste ao centro quando aberta e a toda a largura quando fechada um par de diafragmas. Nada mal para uma compacta com um preço à volta dos 100€.

Outro aspecto que aprecio bastante é o temporizador, discreto e em sintonia sonora com o obturador. Utilizo com muita frequência em velocidades abaixo de 1/125, sobretudo para reduzir o excesso de pressão que se faz sobre o botão de disparo, que não é muito prático, e a consequente vibração que daqui advém.

Canon Canonet G-III QL17
Botão de confirmação de carga da bateria

 

Quick load (QL) é o nome dado ao mecanismo que a Canon desenvolveu nos modelos QL para facilitar o carregamento do filme. Uma simples chapa, que se move coordenada com a tampa traseira, poisa sobre a ponta do filme pressionando uns pequenos encaixes que se ajustam nas perfurações daquele, permitindo que o manípulo de arraste da película avance sem dificuldade enrolando a película. Torna a colocação de filme menos trabalhosa, mas considero mais uma pequena artimanha com propósitos de marketing do que uma mais valia indispensável, embora até agora tenha funcionado sem falhas.

Não podia deixar de referir o sistema automático do flash. E não é uma pequena célula neste que vai moderar a quantidade de luz, como se tornaria popular nas décadas seguintes, mas antes um mecanismo coordenado com o anel de focagem que vai gerir a abertura ideal para determinada distância. Para isso a Canon criou exclusivamente o Canolite D, um pequeno flash vertical com número guia 16 que cobre um ângulo de 35mm, que colocado na sapata da câmera e esta no modo A (automatic), regula o nível de tensão da carga através do circuito do fotómetro, proporcionando a quantidade de luz correcta para a distância focada. Engenhoso…! Ainda não experimentei, até porque nem utilizo com frequência o flash, mas como tenho alguma curiosidade em ver se funciona conforme diz o manual e 2 unidades funcionais, faço intenção brevemente de confirmar a utilidade deste pequeno sistema. Qualquer outro flash pode evidentemente ser utilizado, ou na sapata ou através do terminal de sincronização que se encontra na lateral. Só como curiosidade, e por ser um obturador central, a sincronização faz-se a qualquer velocidade. Um luxo a que muitas telemétricas sofisticadas não têm acesso…!

Concorrência

Devido ao nível de qualidade desta simpática câmera, a concorrência directa reduz-se a meia dúzia de aparelhos. Destacaria talvez duas câmeras, considerando unicamente modelos que já me passaram pelas mãos, e não foram poucos: a Minolta Hi-Matic 7Sii e a Olympus 35RD, cada uma com as suas virtudes e evidentemente defeitos. Colocaria ainda na corrida a Yashica 35GX e pensaria na Yashica 35CC, mas esta considero-a uma versão da GX com uma excelente lente 1.8/35mm, e por esta razão fica de fora. Outras câmeras como a Konica Auto S3 ou a Vivitar 35ES poderiam estar eventualmente na corrida, mas fico sempre com a sensação de que são câmeras demasiado frágeis quando comparadas com a robustez e densidade da Canonet QL17.

Canon Canonet G-III QL17
Janela da esquerda, zebra de confirmação de filme; janela da direita, sinalização de obturador armado (vermelho)

 

A Minolta 7Sii é conhecida pela forma como a sua lente renderiza o desfocado. Algo de mágico acontece aqui ao estilo Minolta. De facto, as imagens têm um equilíbrio acentuado entre resolução, contraste e desfocado que lhes dá uma identidade única. Juntamente com a Konica Auto S2, formam um duo difícil de bater, no que a qualidade de imagem se refere. Por outro lado, possui um conjunto de características que me colocam logo de pé atrás, como o seu visor algo estranho e pequeno com tendência a degradar-se com facilidade, a fragilidade do seu temporizador (um mecanismo que utilizo com frequência) e uma célula que não se dá muito bem com a longevidade, com manias de sobre-exposição. Neste capítulo, a Canon QL17 está noutra dimensão, mesmo sendo maior e mais pesada.

Já sobre a Olympus 35RD sou suspeito… Tem sido a minha câmera de bolso desde há cerca de 2 anos, e com ela andei por todo o lado sem nunca ter tido um simples problema. Fiável, sólida quanto baste e de uma precisão fantástica, a qualidade da lente rivaliza directamente com a Canon. Fácil de calibrar – e por isso também mais fácil de descalibrar – é sóbria nos mecanismos e por isso uma bela peça clássica com o seu desenho geométrico. Comparada com a QL17, falta-lhe a robustez e densidade desta, mas sobra-lha compacticidade e leveza sólida, considerando talvez a Olympus a mais equilibrada de todas as telemétricas.

Canon Canonet G-III QL17
Detalhe do botão de disparo, pouco preciso no meu modelo, sendo necessário alguma força para o accionar

 

A Yashica 35GX, foge um pouco deste registo de câmeras, mantendo-se no entanto fiel à estirpe Yashica. Tem a enorme vantagem de ter prioridade à abertura, o que por si só lhe vale um lugar de destaque, mas o seu esquisito sistema electrónico de setas que se iluminam indicando sobre ou sub exposição sem indicação de qualquer valor de velocidade, colocam de pé atrás fotógrafos mais exigentes. Além disso, o sabor a plástico manifesta-se na maioria dos seus componentes, esvanecendo-se um pouco a solidez da câmera apesar do corpo metalizado e tamanho algo semelhante à Canonet G-III QL17. Pior mesmo só as quatro lâminas do obturador que fazem simultaneamente de abertura, renderizando as altas luzes numa geometria estranha, mas, por outro lado, a lente é de qualidade comparável às rivais, estando talvez o contraste um pouco abaixo, embora tal possa ser do meu exemplar.

Conclusão

Na recta final de 2017 a Canonet G-III QL17 foi a câmera que mais usei. Basicamente andou comigo para todo o lado, fosse em viagens, na deslocação para o trabalho, nas saídas fotográficas ou até mesmo numa simples deslocação ao café. Não sendo tão compacta como por exemplo a Konica Auto S3 ou a Olympus 35RD, é no entanto mais sólida e densa, algo que me atrai bastante, pois como utilizo frequentemente velocidades baixas e temporizador, quase de certeza que esta densidade e peso adicional absorverá com mais eficácia as pequenas vibrações do obturador, embora considere isto um preciosismo que à maior parte das pessoas passe despercebido.

Detalhe do braço de focagem colado ao anel, e em baixo compartimento de bateria e rosca para tripé

 

O seu brilhante visor com compensação de paralaxe é um dos melhores da classe, e a sua lente possui um equilíbrio muito bem conseguido entre desfocado, contraste e resolução. A célula tem uma precisão quanto baste, e embora só tenha utilizado negativos, pareceram-me todos correctamente expostos. Gostei especialmente do espaço entre fotogramas, bastante uniformes e precisos, um aspecto que pouco se fala, mas que tem a sua importância para arquivo e digitalização. Não aprecio o botão de disparo, pelo menos na minha câmera, que tem de sofrer uma pressão considerável para accionar o obturador, podendo isto levar a alguns tremeliques, pelo menos nas velocidades mais sensíveis. Tenho de perceber se é defeito do aparelho, ou apenas uma mal função da minha Canonet. Por experimentar ficou o sistema de flash, mas é algo que faço intenção de fazer nos próximos tempos, e aqui darei conta numa pequena actualização.

Sendo práticos e vendo a coisa pelo lado dos resultados, por cerca de 100€ poder-se-á adquirir uma bela máquina, descomplicada, precisa e sólida que satisfará por completo todas as necessidades do comum dos mortais. No fim o que ditará é a satisfação que se possa obter com uma simples máquina, e considerando que esta satisfação possa estar garantida por muitos modelos, a Canon Canonet G-III QL17 estará obviamente no topo dos modelos a escolher.

Características técnicas

Tipo de câmera: telémetro
Filme: filme 135, 24x36mm
Fabricante: Canon, Inc.
Modelo: Canonet G-III QL17
Ano de fabrico: 1972 a 1982, aproximadamente 1.200.000 de exemplares construídos
Corpo: sólida construção em metal, com alguns, poucos, componentes em plástico (óculo do visor, cobertura do avanço do filme)
Visor: acoplado a telémetro com correcção de paralaxe
Fotómetro: célula Cds com visualização de agulha no visor
Obturador: Copal, integrado na lente
Lente: integrada, Canon 40mm 1:1.7, 6 elementos em 4 grupos, com focagem mínima a 0,8m (2,6 ft)
Diâmetro Filtro: 48mm
Velocidades do obturador: de 1/4s a 1/500s, B em modo automático ou manual
Contador de exposições: janela de visualização com aumento progressivo de contagem
Sensibilidade filme: 25 a 800 ASA, EV 3.5 a EV 17
Temporizador: incorporado na lente, cerca de 10s
Sincronização flash: sincroniza a todas as velocidades, terminal PC na lateral. Sapata quente em cima da câmera
Flash: automático com o Canolite D
Bateria: de mercúrio PX625
Peso: aproximadamente 620gr
Dimensões: aproximadamente  120mm largura x 75mm altura x 60mm profundidade
Outras características: sistema de carregamento rápido (QL), modo flash automático, botão de confirmação estado da bateria, indicador de filme correctamente carregado (um conjunto de riscas brancas e vermelhas vibram) na parte posterior da câmera, indicador do estado do obturador – vermelho indica pronto a disparar e branco já disparado – na parte posterior da câmera, visualização de ponteiro do fotómetro dentro do visor sobre as os valores da abertura com áreas vermelhas indicadoras de sobre e sub exposição.


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