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Em análise: Canon 7

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Em análise: Canon 7

Adquiri, a um preço simpático, uma câmera que já há algum tempo andava debaixo do meu radar: a Canon 7. E antes que as expectativas acabem em superlativos, devo dizer que embora seja um belo pedaço de metal, muito bem construído e com a qualidade que a Canon nos foi sempre habituando, tem no entanto um par de características que limitam, a certo grau, a minha câmera de telémetro ideal. Não está no topo da minha lista, mas anda lá perto.

Antes de mergulhar numa uma análise mais cuidada, queria deixar esta posição que tenho em relação a este tipo de máquinas fotográficas. Nunca fui grande utilizador deste conceito, porque as considero sempre um passo atrás em relação às SLRs, estas bastante mais versáteis, precisas e modulares. Mudei um pouco de opinião quando comecei a utilizar uma Contax IIa e me senti um pouco mais dentro do espírito da fotografia, tal o gozo que a máquina me dá – quando a utilizo, tenho flasbacks da guerra da coreia, embora nunca lá estivesse. Estranho…  Continuando, identifico-as sobretudo com a fotografia de rua, algo que me parece por vezes funcionar mais como uma atitude condicionada, do que por um facto mais racional, talvez porque os grandes fotógrafos foram ou são normalmente fotógrafos de rua com uma Leica. Mas, de facto, neste género de situação, até funcionam de forma discreta e eficaz, e nem me importo muito de alinhar nesta consciência colectiva.

Ou seja, e de forma resumida, quando pego numa câmera destas, é porque estou normalmente no meio da confusão a registar umas cenas engraçadas, ou a recrear-me com detalhes urbanos a preto e branco. Não sei se foi o conceito que me formatou ou formatei-me eu mesmo no conceito, mas facto é que hoje já utilizo com alguma regularidade este tipo de câmaras, e com elas encarno solenemente o artístico espírito pioneiro da fotografia.

E com a Canon 7 não poderia ser de outro modo, não só pela sua sólida qualidade de construção, mas também pela surpreendente facilidade de utilização, pese o facto de ser algo volumosa, aproximando-se um pouco de uma SLR normal, no que a tamanho concerne. Pertence à última série de câmeras de telémetro com objectivas intermutáveis estilo Leica produzidas pela Canon, sendo substituídas na altura pelas SLRs, que começavam a afirmar-se como a grande tendência do mercado, bastante menos competitivo.

Canon pioneira

Foi logo a seguir à guerra que surgiram os primeiros protótipos da Canon, imitações perfeitas da Leica, com o mesmo nível de materiais e acabamentos, curiosamente fornecidos com lentes Nikon (Nippon-Kogaku Tokyo) que viria a tornar-se mais tarde um rival à altura. Pequenas modificações e melhorias nos modelos sucessivos, foram afastando progressivamente a marca do original conceito Barnack, evoluindo para um desenho que começou a creditar uma identidade única, com uma penetração no mercado sólida e sustentada.

Canon 7 - painel superior com todas as funções visíveis

O modelo 7 é lançado em Setembro de 1961 como pináculo da tecnologia Canon, após uma experiência de duas décadas no fabrico deste tipo de aparelhos, período que viu nascer mais de trinta modelos. De todas as câmeras com rosca Leica (LTM 39), este modelo e as subsequentes variações, são consideradas por muitos especialistas como os mais avançados até então produzidos.

A grande novidade foi a inclusão de um fotómetro acoplado, muito apreciado na altura, embora tenha resultado no aumento das dimensões da máquina. Outras características como a melhoria do visor, mais amplo e luminoso, com a projecção de linhas de enquadramento e respectiva focal, inclusão de um mecanismo para compensação da paralaxe e folhas finas de aço no obturador, contribuíram para afirmar o modelo como um dos mais populares de sempre da Canon.

Canon 7 - selector de velocidades e leitor de luz

À Canon 7, seguiu-se a 7s e a 7sZ, que são basicamente a mesma câmera, com pequenas diferenças ao nível do fotómetro e pouco mais. Esta duas últimas são no entanto consideravelmente mais caras (e então se forem negras atingem valores estratosféricos), pois a sua produção foi apenas uma fracção da Canon 7 original, atingindo esta recordes de venda, ultrapassando inclusive a Canon P, um dos mais populares modelos da marca.

Mas competir com a Leica não era tarefa fácil. A Leitz havia lançado em 1954 a Leica M3, um sério caso de sucesso que catapultou a marca para um outro patamar, deixando os mais próximos rivais a considerável distância. As vendas das SLR começaram a ultrapassar as telemétricas e em 1968 a Canon abandonou por completo o fabrico deste tipo de aparelhos lançando-se no mercado das reflex, continuando a produzir no entanto as Canonet, mais viradas para o apetecível mercado amador. Fechou-se um ciclo, e terminou assim uma brilhante era para a Canon. Persistem ainda hoje os seus modelos no mercado de segunda mão, e persistirão por muitos anos. Resistentes ao tempo, continuam a funcionar da mesma forma e com a mesma precisão, mesmo que por vezes seja necessário um empurrãozito para voltarem ao brilho de outrora.

Primeiras impressões

Devo dizer que foi um momento de sorte, quando licitei e ganhei este leilão no eBay. Este modelo que adquiri está completamente novo, extremamente bem conservado, sem um único risco e com as folhas do obturador intactas. Até o fotómetro funciona de forma precisa, uma surpresa agradável. Tive apenas que dar um jeito nalgumas poeiras e névoa que se acumularam no visor, arranjar o temporizador, colocar umas pinguitas de óleo pelo sim pelo não e substituir todos os vedantes. Nada de especial, apenas aquele empurrãzito para voltar a brilhar.

E embora não estivesse à espera de uma máquina pequena, a primeira impressão que tive foi sensação de ter entre mãos uma Canon Tlb versão telemétrica…! Não sei se condicionado pela alavanca de avanço do filme e pelo selector de velocidades dadas as parecenças, mas facto é que vejo entre elas traços semelhantes e para surpresa minha, a Canon 7 ainda é mais alta e mais grossa do que a Ftb, embora ligeiramente, menos larga e pesada. Ou seja, para os parâmetros das máquinas deste género, é um gigante. Convivo bem com isto, pois nunca me importei muito com o peso das câmeras.

Canon 7 - vista frontal

Mas lá fui percebendo que estava perante uma máquina bastante bem construída, sólida e agradável de utilizar. E esta qualidade é extensível ao interior, onde tudo está perfeitamente arrumado, apesar da complexidade dos seus mecanismos, não existindo sequer um fio fora do lugar, tudo encaixa com precisão. Por alguma razão foi o pináculo da Canon e considerada uma das mais bem construídas na altura.

Agora o que gosto mesmo é do seu visor amplo e luminoso, com projecção das linhas de enquadramento e respectiva focal, com o bónus de corrigir a paralaxe, coisa que nem me havia apercebido de início e que se revelou uma agradável surpresa (não costumo informar-me muito antes de ter o material nas mãos). E consigo manter os dois olhos abertos para compor e focar, o que constitui uma agradável surpresa. Detalhes maravilhosos que me alimentam a ânsia de colocar um Tri-X e sair por aí com espírito louco e destravado…!

Canon 7 em detalhe

O visor…! Bem sei que não é o de uma Voigtlander Bessa, mas para o padrão da época pouco melhor existia. Agradavelmente claro, brilhante e funcional mesmo para os padrões actuais, tem umas características únicas que presumo tenha causado espanto e admiração naquelas épocas. As linhas de enquadramento de cada uma das focais estão projectadas no visor e alteram-se rodando um pequeno selector com quatro posições, onde se pode escolher a focal adequada: 35mm, 50mm, 85mm/100mm e 135mm. Embora o plano do visor não se altere com o aumento ou diminuição do selector, à semelhança de modelos anteriores da marca, a projecção das linhas emprestam funcionalismo ao enquadramento com a ampla visualização da área fora destas linhas, podendo antecipar-se alguns cenários e esperar o momento certo para o disparo. E as linhas de enquadramento movem-se, acopladas que estão ao sistema de focagem, compensando a paralaxe. Brilhante!

Canon 7 - Roda selector de focal

O obturador tem a vantagem de ser construído com finas folhas de aço (0.018mm de espessura) relativamente a outro tipo de obturadores em tecido. É que estas câmeras não têm espelho que protegem o obturador do efeito lupa das lentes, à semelhança das SLRs, portanto susceptíveis a sérios danos causado pela concentração dos raios solares no plano focal, ou seja, no obturador. E a durabilidade do aço é bastante superior à do tecido, embora com o tempo as folhas tenham tendência a ficar com marcas vincadas, no entanto perfeitamente funcionais, sem problemas de operacionalidade.

Estava era à espera de um disparo algo mais silencioso, embora muito silencioso não seja de esperar com um obturador focal com lâminas de aço. O meu derradeiro teste é a utilização da máquina no interior de uma igreja focando alguém a menos de 2 metros: se virar a cabeça, ultrapassou o limite, se continuar a oração na paz de Deus, teste ultrapassado com sucesso. E esta passou, se bem que esteve no limite do crente virar a cabeça, dada as pequenas perturbações que sempre foi manifestando a cada disparo. Talvez fosse um tique, não percebi bem…

Canon 7 - cortina em folhas de aço

E o fotómetro, funcionando, como é o caso do meu, é uma preciosa ajuda para quem não gosta de fotómetros de mão. Encontra-se acoplado, pelo que torna-se extremamente simples e funcional: basta apontar para a cena, colocar a velocidade, ler o valor da abertura do pequeno ponteiro laranja e colocar na lente esse valor. Não se assemelha na sua função às modernas rangefinders com a sua medição TTL precisa e a leitura tem que ser efectuada sempre no topo da câmera, mas funciona bastante bem. Tem duas escalas, uma para situações de luz abundante e outra, a laranja, para situações de pouca luz, embora para este último caso o fotómetro de Selénio não seja propriamente a melhor escolha. Um selector na traseira da câmera, permite alternar entre estes dois tipos de situação. E só uma nota para o selector da sensibilidade do filme que vai desde 6 a 400 ASA. Pode parecer pouco, mas também naquela época que filmes existiam acima desta sensibilidade?

Para além do encaixe de rosca M39, a Canon 7 possui uma baioneta externa adicional para a famosa e poderosa 50mm f/0.95, uma lente bastante procurada atualmente e que atinge preços absurdos no mercado. Esta lente é mais vidro que metal e a rosca de filtro é de 72mm, podendo calcular-se bem o tamanho da besta, considerando que as lentes LTM 39 são substancialmente mais pequenas que as suas primas para as SLRs. Esta baioneta foi um exclusivo da série 7, não sendo possível utilizar-se aquela lente noutra máquina que não as Canon 7 e 7s.

Canon 7 - mecanismo de focagem do telémetro

Colocar o filme é tão fácil e rápido como numa SLR, não sendo necessário passar pela penoso processo das câmeras estilo Barnack… Basta abrir a tampa utilizando os dois mecanismos de segurança, e o resto é o de sempre: colocar o filme, avançar com o braço da alavanca, contador a adicionar as frames de forma crescente, rebobinar colocando o selector na posição “R” (naquele colar que rodeia o botão de disparo e que tem também uma posição de bloqueio), abrir a tampa com o contador a voltar a “0”. Voilá, como numa reflex!

Achtung, achtung…! Não tem sapata… Que chatice! Esta é uma falha considerável para mim, e até nem digo isto por causa da utilização de flash ou visores auxiliares, mas sim pela bolha de nível, acessório que utilizo com bastante frequência para aprumar linhas horizontais e verticais. Existe um pequeno acessório fabricado pela Canon que se coloca de lado encaixado no terminal de sincronização do flash, mas para os efeitos que pretendo, não é muito de fiar, já sem falar do preço absurdo que custa. Para quem quer utilizar um flash ou visores auxiliares, tem que ter isto em consideração.

Canon 7 - visor

Mais um detalhe, incómodo por sinal. A colocação de uma correia de ombro resulta na situação irritante de a câmera perder o equilíbrio inclinando-se para trás, situação pouco confortável no seu transporte. As alças onde a correia prende estão colocadas na parte frontal da câmera, um detalhe ergonómica e funcionalmente deficiente. Para corrigir este detalhe, basta colocar uma pequena alça construída em metal e engenhosamente colocada por trás do encaixe do terminal flash. É o suficiente para a máquina voltar a um ponto de equilíbrio, e corrigir esta irritante situação.

Conclusão

Uma das razões que me levam a escolher as câmeras de telémetro para determinado tipo de fotografia é a sua discrição face às SLRs. Evidentemente que para casos que requeiram uma operação mais Ninja, ser pequena e portátil não é suficiente; ter um obturador discreto também conta. Neste aspecto a Canon 7 fico um pouco no limite. Mas sinto que este som abafado do obturador passa bem despercebido no burburinho da cidade, existindo uma fusão harmoniosa entre o click e as sirenes da ambulância, os apitos dos taxistas, os passos surdos dos transeuntes…! Neste campo, prefiro a minha outra Canon, a III, Barnack style, que muita satisfação me deu até agora e que virá parar a este blog brevemente.

Mas o tamanho da câmera é por vezes intimidante, sem falar da sua irritante tendência a inclinar-se para trás, obrigando-me a ter constantemente uma mão na câmera para não virar a lente para o céu. Mas fora isto, até que a Canon 7 é bem agradável de utilizar e de uma operacionalidade e precisão fantásticas. Tenho sempre os meus fotogramas muito bem expostos, homogeneamente espaçados e, o que me satisfaz particularmente, sem grandes problemas de paralaxe.

Câmeras mais recentes são evidentemente mais apetecíveis pela inclusão de tecnologia moderna, um aspecto atraente para muitos consumidores, sempre dispostos a largar os cordões à bolsa por qualquer coisita a mais. Lembro-me assim de repente das Bessa, Zeiss Ikon ou qualquer Leica M, mas a que custo? A Canon 7, sendo uma dos modelos mais vendidos de sempre desta marca, resultou numa abundância saudável, conseguindo-se hoje facilmente adquirir uma abaixo dos 100€, que é apenas uma fracção do custo de uma daquelas, que raramente baixam dos 1,000€. Prefiro adquirir mais uns dois pares de lentes do que hipotecar este meu hobby fotográfico no custo hiper inflacionado de uma câmera mais recente cheia de salamaleques (mas se me quiserem oferecer uma, aceito).

Melhor que uma Canon 7 com baioneta de rosca LTM39 será com certeza difícil de encontrar (a não ser uma 7s, mas a diferença de custo não se justifica, sendo basicamente a mesma câmera com outro fotómetro), pelo que, para quem gosta e aprecia este tipo de câmeras, é difícil de resistir a uma boa pechincha quando esta aparece.

Características técnicas

Tipo de câmera: telémetro
Filme: filme 135, 24x36mm
Fabricante: Canon, Inc.
Modelo: Canon 7
Ano de fabrico: 1961 a 1965, aproximadamente 100.000 exemplares construídos
Corpo: sólida construção em metal
Baioneta: de rosca compatível LTM 39, baioneta externa adicional exclusiva para lente Canon 50mm f/0.95
Visor: 0,80x acoplado a telémetro, base de telémetro 59mm, linhas de enquadramento de 35mm, 50mm, 85mm/100mm e 135mm, correcção de paralaxe
Fotómetro: célula de Selénio acima da lente (ATL), acoplada às velocidades, sensibilidade de EV6-13e EV12-19.
Obturador: plano focal com folha de aço com 0,018mm de espessura
Contador de exposições: sim, com janela para visualização e contagem crescente, voltando a “0” após abertura da tampa do filme
Velocidades do obturador: de 1s a 1/1000s, B e T
Sensibilidade filme: 6 a 400 ASA, necessário acionar botão desbloqueador na traseira da câmera para mudança nominal
Temporizador: sim, cerca de 12s
Sincronização flash: sincroniza a 1/60s com cabo ligado a terminal PC na lateral
Bateria: nenhuma
Peso: aproximadamente 600gr
Dimensões: aproximadamente  140mm largura x 80mm altura x 33mm profundidade
Outras características: colar com posição de bloqueio do disparador e posição para rebobinar filme, selector de altas luzes ou baixas luzes, abertura da tampa traseira através de dois mecanismos de bloqueio um na base da máquina e outro na lateral, possível regulação de desajuste horizontal e vertical do telémetro sem abrir a máquina.


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