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Zeiss Ikon C 531/2, negativo 6×9, objectiva Tessar 3.5/105mm

Fotografar com máquinas de fole

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Fotografar com máquinas de fole

As máquinas de fole são talvez as mais representativas da fotografia clássica. Constituíram, nos seus diferentes formatos, o esqueleto estrutural de praticamente todos os modelos construídos desde os primórdios da fotografia até finais dos anos 50. Marcaram uma época em que a fotografia transformava o acto de fotografar numa espécie de ritual artístico, necessário pensar toda a sequência gestual, abrandando o processo fotográfico.

Tenho uma atração especial por estes tipos de câmara. Não é de certeza pela sofisticação tecnológica, excelência ótica ou rapidez operacional, mas provavelmente pelo contrário disto tudo. São normalmente construídas com elevada precisão mecânica, projectadas para grande longevidade (a obsolescência ainda não fazia parte das estratégias de produção), fáceis de calibrar ou consertar, não dependentes de qualquer artifício electrónico, e, acima de tudo, porque é necessário dar um passo de cada vez, obrigam a mergulhar profundamente em todo o processo fotográfico, desde a colocação do filme até à revelação no laboratório.

Estes aparelhos foram evoluindo com o desenvolvimento tecnológico e acesso a novos materiais, culminando nos anos 50 com modelos bastante engenhosos que fecharam com chave de ouro o fim de uma época. Deram lugar às SLR’s que rapidamente estabeleceram nova tendência de mercado, ficando as de fole no fundo da caixa ou nas prateleiras dos coleccionadores.

Hoje voltam a estar na moda por razões diferentes, não somente resgatadas do passado como relíquias e resquícios de uma era, mas com capacidades operacionais e funcionais bastante actuais, sendo não só procurada por nostálgicos do analógico mas também por uma nova geração com vontade de conhecer e experimentar coisas do passado.

Utilizá-las no entanto é outra história, habituados que estamos a que tudo se desenrole de forma imediata. Existe uma curva de aprendizagem, como tudo na vida, e o domínio dos diferentes processos é uma garantia de maior destreza e agilidade, tornando mais fácil a obtenção de melhores imagens, ou pelo menos das imagens que pretendemos.

Ritual à antiga

A característica principal de uma máquina de fole, é que tem um fole, claro, com uma objectiva na ponta, que é recolhida para dentro de uma caixa, tornando-a facilmente transportável. A parte de trás da caixa tem ou o compartimento para filme em rolo, ou um despolido de focagem onde assentará um chassis com placas de filme, ou de rolo também.

É na objectiva onde se encontram os mecanismos que actuarão sobre a imagem: obturador, diafragma e temporizador. Depois de colocados os valores pretendidos, o obturador é armado manualmente e accionado o disparo, ou no corpo da máquina mediante um mecanismo engenhoso ou no próprio obturador através de um cabo disparador (vulgo bicha).

Zeiss Ikon C 531/2, negativo 6x9, objectiva Tessar 3.5/105mm
Zeiss Ikon C 531/2, negativo 6x9, objectiva Tessar 3.5/105mm

 

Este é o funcionamento básico de uma máquina de fole. Mas não se deixe enganar pela simplicidade das operações. A lactância do erro está sempre presente, e tirar os 12, 10 0u 8 frames todos bonitinhos e bem expostos é, ao princípio, uma questão de sorte. É corrente e recorrente aparecerem imagens sobrepostas, em branco ou ainda completamente desfocadas. E mesmo em mãos experientes tal acontece de quando em vez.

O ritual não tem nada de especial, pois é isto mesmo, um ritual. Abrir a máquina estendendo o fole, colocar o filme, calcular mais ou menos o enquadramento, focar, medir a luz, colocar os parâmetros de leitura, armar o obturador, deslocar-se um pouco à frente ou atrás e, se tudo está como deve estar, acionar o disparador, passar o filme à frame seguinte e voltar a repetir tudo. Juntar a isto a espera pelos resultados, faz da fotografia com máquinas de fole uma verdadeira jornada anti-stress.

Tipos de câmeras

Existem algumas diferenças entre as câmaras de fole, como por exemplo no formato do filme, ou na forma de o carregar, o avanço deste, a visualização do enquadramento, ou ainda a forma de focar o objecto a fotografar, entre outras diferenças um pouco mais técnicas. Para todos os gostos portanto, mas provavelmente não para todos os bolsos, pois modelos elaborados ou raros têm uma grande procura no mercado, atingindo valores exorbitantes e maior parte das vezes exageradamente inflaccionados. Para ter uma ideia, uma Agfa Automatic, uma Voigtlander Heliar, uma ou Ensign Ross, podem facilmente ultrapassar os 1.500€, e nem precisam de estar num estado de aparência imaculada, basta muitas vezes estar e aparecer…! Mais pela raridade delas e voracidade de colecionadores, do que propriamente por diferenças de qualidade na hora do resultado final, até porque muitas vezes as óticas são as mesmas que nos modelos abaixo na gama.

Existe um conjunto de características que convém ter em atenção na hora de escolher o modelo a adquirir: o formato do filme, o tipo de focagem, a forma de enquadrar e o avanço da película. São pequenas variações subtis que colocam à nossa disposição um meio mais acessível de operar estas câmeras, fazendo com que toda a dinâmica seja mais simples e menos preocupante.

Agfa Record III, negativo 6x9, objectiva Solinar 4.5/105mm
Agfa Record III, negativo 6x9, objectiva Solinar 4.5/105mm

 

Formato

Para simplificar esta matéria, vou considerar somente as máquinas e modelos concebidos para filme 120, que podem fornecer imagens nos formatos 4,5×6, 6×6 ou 6×9. E esta deverá ser a primeira característica na escolha deste tipo de máquinas, o formato adequado às nossas preferências. De uma forma geral, as marcas desenvolveram modelos nestes três tipos formatos, embora uma ou outra se tenha especializado mais num que noutro. Um rolo de película 120 dá 16 imagens no formato 6×4,5, 12 no formato 6×6 e 8 no formato 6×9. A grande vantagem deste último em relação aos anteriores, reside no facto de produzir negativos maiores que requerem menos ampliação, produzindo imagens com ligeiro ascendente qualitativo em relação aos outros formato, embora a quantidade de imagens seja metade do formato 6×4,5. É sobretudo uma questão de gosto, e talvez adequar o formato ao projecto fotográfico seja um bom ponto de partida. É assim que escolho a máquina com a qual vou fotografar.

Focagem

Outra diferença entre este tipo de câmaras, consiste na inclusão ou não de um telémetro para focagem. Os modelos mais baratos normalmente não os têm e a focagem é efectuada à zona. Calcula-se a distância real a olho e transfere-se este valor para a escala da objectiva, utilizando de preferência um diafragma mais fechado para maior profundidade de campo, dando maiores garantias de focagem correcta. Modelos intermédios na gama, têm um sistema de focagem de telémetro desacoplado, ou seja, quando se foca, não se está a utilizar a objectiva para focar, mas um sistema normalmente incluído no visor que foca o objecto através de um pequeno manípulo ou anel. Neste caso, transfere-se o valor da escala do telémetro para a objectiva, e se a câmara estiver bem calibrada, o objecto sai normalmente focado, mesmo a plena abertura. Nos modelos mais caros, e normalmente reservado para estas máquinas, as marcas optavam por incluir um telémetro acoplado ao anel de focagem da objectiva, permitindo uma utilização mais prática e despreocupada. Focar através destes visores coincide sempre com o plano de foco da objectiva, em tempo real, pois ambos estão conectados por um dispositivo mecânico permitindo a sincronização entre os dois sistemas.

Enquadramento

O enquadramento e visualização do objecto a fotografar é normalmente efectuado por uma pequena janela simples que varia consoante os modelos, nos mais caros com a inclusão de margens luminosas que indicam a área a ter em conta. Nos modelos mais antigos ou de uma linha de consumo mais acessível, uma pequena janela ou uma simples estrutura metálica em arame foi a forma rudimentar encontrada para auxiliar o enquadramento. Não esquecer a paralaxe, a margem de erro que existe entre visualizar por estes auxiliares de enquadramento e a imagem real registada. O ângulo é diferente, o que se vê nunca coincide com a imagem no filme, especialmente para distâncias compreendidas entre os 0,9m e 3m. A partir daqui a paralaxe é subtilmente menos acentuada e imperceptível no infinito.

Avanço do filme

Os dispositivos mais simples têm uma simples peça circular para ir enrolando e passando a película ao enquadramento seguinte. Não existe nestes modelos forma automática de parar este avanço, a não ser o próprio utilizador que, espreitando por uma pequena janela situada na tampa traseira, pode ir observando a passagem de marcas até aparecer a numeração que indica o enquadramento correcto. Não é fácil, e em certos modelos pode ser até uma missão impossível. Os fabricantes aconselham a não colocar esta janela virada para o sol, mas até hoje nunca tive qualquer problema com isto, e basicamente é o que faço para conseguir visualizar adequadamente a numeração.

Nos modelos mais sofisticados, não é necessário. Depois de algumas voltas, o avanço bloqueia na posição certa. Uma vez acionado o disparador, o mecanismo é libertado podendo proceder-se ao avanço para a frame seguinte. Para os mais distraídos, aconselho uma câmera com mecanismo automático. É muito fácil esquecer o avanço do filme, e as sobreposições são frequentes. Pode ser até que a imagem final resulte, mas quando esta não é a intenção, pode ser uma chatice e desperdício de filme. Já agora, nas câmeras de fole, como em todas as câmeras de médio formato, o filme passa de um carreto para o outro; não existe rebobinar para o carreto original como no 35mm.

Obturadores e objectivas

Mas o coração destas máquinas são o obturador e a respectiva objectiva, tudo numa peça só. São obturadores centrais, de folha, cujas lâminas se situam algures entre os elementos óticos da lente. As partes a ter em conta são o vidro, o diafragma e o tipo de obturador. Estas partes combinadas vão fazer toda a diferença na imagem final, sendo que a escolha da objectiva certa é o cerne da questão.

Lente

Norma a ter em conta: modelos mais caros têm lentes de melhor qualidade, embora o inverso não seja verdade. As melhores são as de tipo Tessar, objectivas construídas com 4 lentes, mais luminosas e que produzem imagens bastante contrastadas e nítidas. Normalmente são as que equipam os modelos de topo das marcas. Acima destas só as Heliar ou Apo-Lanthar da Voigtlander, com 5 lentes no interior, mas que atingem preços estratosféricos que considero absurdos. As mais conhecidas são as Tessar da Carl Zeiss, Solinar da Agfa, Xenar da Schneider e Skopar da Voigtlander. Outras existem, no entanto menos populares, talvez devido à pouca procura.

Modelos mais acessíveis têm um tipo de objectivas conhecidas como triplets, como o nome indica, são 3 as lentes que as constituem, e normalmente não são tão luminosas como as Tessar, sendo normal abrirem a f:4.5 ou menos, embora existam umas quantas mais luminosas. Se bem que ao centro até possam produzir imagens interessantes, normalmente só fechando um par de diafragmas temos uma imagem mais definida e uniforme, muitas vezes sem diferenças para as Tessar. Lembro-me das Triotar da Carl Zeiss, Anastigmatic da Kodak, Vaskar da Voigtlander, Apotar da Agfa, Radionar da Schneider… Claro, muitas outras existem, e basta fazer uma procura para se obter informação quando o nome parecer estranho.

Voigtlander Perkeo IIIE, negativo 6x6, objectiva Color-Skopar 3,5/80mm
Voigtlander Perkeo IIIE, negativo 6x6, objectiva Color-Skopar 3,5/80mm

 

Ainda como nota, a importância das camadas anti-reflexo. Como o nome indica, diminuem consideravelmente reflexos indesejáveis, dependendo do número de camadas e da qualidade dos materiais aplicados. Basicamente, modelos antes da guerra, quando esta tecnologia ainda dava os primeiros passos (inventada pela Carl Zeiss e classificada por Hitler como alto segredo militar), não possuem camadas anti-reflexo, podendo observar-se claramente vidros sem cor nestes modelos, com uma aparência baça muitas vezes. Nos modelos pós-guerra, e quando esta tecnologia se tornou acessível aos fabricantes, começaram a ser produzidas lentes com uma ou mais camadas, sendo notória uma determinada cor ou tonalidade, consoante a marca e os materiais aplicados.

Basicamente, quanto mais aberta a lente, mais elementos de vidro e inclusão de camadas anti-reflexo ou vidros de baixa dispersão, mais caro o modelo, mas maior probabilidade de as imagens saírem mais contrastadas, nítidas e com cores fiéis. Definitivamente, um parâmetro chave a ter em conta na hora de escolha de uma câmera de fole.

Diafragma

A importância do diafragma está relacionada com o número de lâminas e a qualidade dos planos desfocados, principalmente as altas luzes, que se materializam em círculos maiores ou menores, consoante a distância e os valores do diafragma. Basicamente, quantas mais lâminas possuir mais circulares serão as altas luzes nos planos desfocados, quando se fechar o diafragma para números maiores na obtenção de planos com maior profundidade de campo. Os modelos mais antigos possuem normalmente um número maior de lâminas, hábito rotineiro comum a todos os fabricantes mas que se foi perdendo a seguir ao período da 2ª grande guerra, a partir do qual se foi tornando usual a redução para 6 ou 5 lâminas por razões de economia de escala, aparentemente.

Tenha atenção esta característica, porque pode tornar-se relevante para determinado tipo de fotografias, especialmente se não gosta, como eu, de ver altas luzes com aquela forma hexagonal alienígena.

Obturador

Aqui entram nas contas a fiabilidade e precisão das velocidades, e basicamente, em linguagem popular, não ficar pendurado. Um obturador fiável permite a utilização da câmera vezes sem conta, em que o mecânico é apenas uma miragem…! Os mais conhecidos e conceituados do mercado são o Synchro-Compur, linha Compur do fabricante alemão F. Deckel, e o Prontor-SVS fabricado pela firma também alemã, Gauthier. Mais uma vez tecnologia alemã, invariavelmente. Mas do Japão surgem obturadores que vão rivalizar com os alemães, como o famoso Copal-MX, da firma Copal Optical Works Co Ltd, e os Seiko fabricados pela Seikosha. Estes obturadores, inspirados normalmente na tecnologia alemã, equipam sobretudo as máquinas dos construtores japoneses, que começaram a ocupar progressivamente largas faixas de mercado no período a seguir à 2ª grande guerra.

Um obturador bem afinado e lubrificado, é uma peça para durar anos e permitir operar sem problemas de maior. Mesmo que surja alguma situação atípica, são de fácil manutenção e reparação. Algo mais difícil de acontecer numa SLR, mecânica ou electrónica. Prefiro que as minhas escolhas recaiam em modelos com Synchro-Compur com uma velocidade topo de 1/500, mas admito que qualquer outro possa estar ao mesmo nível, sendo uma questão de preferência pessoal.

Memorizar gestos, optimizar a prática

Se utiliza, ou pretende vir a utilizar, de forma regular estas máquinas de fole, então o melhor é treinar numa sem rolo e não só tentar perceber a sequência lógica da sua operacionalidade, como memorizar o seu funcionamento de forma a optimizar todo o processo fotográfico. Vou tentar dar uma ajudinha, tentando materializar um pouco a minha experiência, que é já alguma, sobretudo construída à custa de erros.

Basicamente, nenhuma máquina de fole tem fotómetro. Somente alguns modelos, muito poucos, já no ocaso da fabricação. Ou adquire um fotómetro (aconselhável), ou utiliza a regra “Sol 16” (requer imenso treino) ou ainda faz o que lhe apetecer com os consequentes resultados que daqui advêm. A escolha é sua, mas dá jeito ter à mão um pequeno e fiável fotómetro de mão.

Passo 1 – Colocar o filme
Primeiro entre os primeiros, colocar o filme. Abra a tampa, ponha o filme no encaixe certo e avance até aparecer uma seta nas costas do papel da película e fazê-la coincidir com com algum indicador assinalado na câmera escura, quando o tem. Se não tiver, então tensione o filme, feche a tampa, abra a pequena janelinha atrás, e vá enrolando o filme até aparecer o número 1, indicando a primeira fotografia. Se a câmera tiver o avanço automático do filme, vá avançando até bloquear. Está na fotografia 1.

Passo 2 – Focar
Se a máquina não tiver telémetro, só visor, calcule a distância ao sujeito e coloque o resultado na anel da objectiva seleccionando o valor mais próximo; feche o diafragma num valor possível para garantir profundidade de campo suficiente. Se tiver telémetro, foque, leia o valor na escala e transfira esse valor para a objectiva. Se tiver telémetro acoplado ao anel de foco, foque normalmente, como numa SLR.

Passo 3 – Leitura de luz
Agora que já sabe a distância a que está do seu sujeito, leia com o fotómetro a luz no sítio adequado, e transfira esses valores para o obturador.

Passo 4 – Armar o obturador
Se já colocou os valores da abertura e velocidade, arme o obturador. Nunca altere a velocidade depois do obturador estar armado, pois pode danificar este.

Passo 5 – Enquadrar e disparar
Componha agora a imagem, enquadre, compense a paralaxe (se não tiver nenhum dispositivo auxiliar, desloque ligeiramente a objectiva no sentido do visor e reze para que saia dentro do enquadramento) e dispare.

Passo 6 – Novo avanço do filme
Agora atenção…!!! Se for fotografar novamente e a máquina não tiver avanço automático, avance já o filme para a exposição seguinte, caso contrário as probalidades de se esquecer aumentam, podendo sobrepor imagens. Se tiver avanço automático, como o mecanismo de disparo fica bloqueado até avançar para a exposição seguinte, não tem problema. Se não for fotografar, feche a máquina sem avançar a película. Não convém avançar o filme e fechar a máquina, porque o efeito de sucção do fole, quando a tornar a abrir, vai deformar o plano da película.

Na realidade, todas estas operações são básicas, estando envolvidas em qualquer equipamento fotográfico. A única diferença, é que muitas delas estão automatizadas nos aparelhos mais recentes. No entanto, e se seguir estes passos adequadamente, todos os gestos se convertirão em comportamentos espontâneos e fluídos, acelerando o processo fotográfico, podendo usufruir satisfatoriamente, no mínimo, da qualidade que estas máquinas de outros tempos têm para oferecer, sem que tal se torne num processo entediante e moroso.

Que marca ou modelo escolher?

Aquela que o seu bolso permitir…! Normalmente nos modelos mais caros não tem somente o que a marca produz de melhor, mas também a vida mais facilitada no momento de fotografar. Nada de anormal, não é verdade? Afinal qualidade paga-se, seja no que for na vida, e aqui não é diferente.

Existem modelos conhecidos e menos conhecidos, fabricados um pouco por todo o mundo. Na linha da frente, invariavelmente, os modelos alemães, com as conhecidas marcas Voigtlander, Zeiss Ikon, Weltur e Franka. Da America, Agfa, Kodak e Ansco produziram modelos que se tornariam icónicos, e do Japão as grandes marcas como a Olympus, Mamiya ou Minolta, entre outras, entrariam na corrida com modelos sólidos e fiáveis.

Agfa Isolette III, formato 6x6, com objectiva Solinar 3.5/75mm
Agfa Isolette III, formato 6x6, com objectiva Solinar 3.5/75mm

 

Tenho no entanto especial apetência por modelos alemães. Todas as câmeras de fole que possuo na minha colecção são alemãs, com excepção da Agfa. Destaco a Voigtlander Perkeo III, a Agfa Super Isolette e a Zeiss Ikon Super Ikonta, aquelas com que mais fotografo no formato 6×6. No formato 6×9 a dificuldade de escolha é entre a Agfa Record III e a Zeiss Ikon Super Ikonta C 531/2. Espero brevemente adquirir alguns modelos Welta da Weltur e Solida da Franka. Mais longe da vista e da carteira, mas com ansiada esperança, estão os modelos Voigtlander Bessa III com lente Heliar ou Apo-Lanthar e ainda alguns modelos Selfix e Autorange da Ensign.

Para quem se queira iniciar neste tipo de máquinas, aconselho um modelo simples e financeiramente acessível, para perceber se é o tipo de câmera que se adapta não só ao seu estilo de fotografia como à sua personalidade, uma vez que envolve passos sucessivos de compenetrada concentração. Existe a possibilidade de se tornar um pequeno pesadelo, se alguma incompatibilidade surgir, por isso nada de rebentar com a carteira, até porque se a quiser colocar à venda, terá alguma dificuldade em se desfazer dela, devido à pouca procura no mercado de ocasião.

Um modelo com telémetro desacoplado, obturador Prontor-SV ou Compur-Rapid, uma triplete como lente, bastará para primeiras experiências, podendo mais tarde dar o salto para uma coisa mais sofisticada, como escolhendo alguns dos modelos que ilustram este artigo.

Como adquirir uma câmera em bom estado

Ao escolher a sua câmera, opte sempre por a comprar numa loja que lhe ofereça algum tipo de garantia. Fica mais descansado e pode sempre devolver ou mandar arranjar ao abrigo dessa garantia. Se a comprar directamente a a alguém, convém conhecer alguns dos sintomas mais comuns, podendo ou renegociar o preço da câmera ou então desistir da compra. Tenha atenção que são câmeras muito antigas, algumas com mais de 100 anos, e nem sequer é necessário terem esta idade para apresentarem sinais de mau funcionamento ou deterioração. As massas de lubrificação tanto na lente como no obturador poderão estar ressequidas, o sistema invadido por poeiras ou outras sujidades, o telémetro desajustado ou incapacitado, o fole danificado ou com buracos, etc..

Caso pretenda adquirir uma, tenha em atenção os seguintes pontos:

  1. Avalie o aspecto exterior da câmera. Veja se tem as coberturas em bom estado, e se não existem mossas ou pancadas que tenham deformado a estrutra metálica do corpo.
  2. Verifique se a câmera abre e fecha sem dificuldade. Terá de recolher facilmente para dentro da caixa e estender se forma fluída para a sua posição final, de forma a estacionar solidamente.
  3. Veja o estado do fole, um dos elementos que mais sofre com a passagem dos anos ou maus tratos. Avalie o estado geral do fole, se ainda dobre de forma maleável ou está ressequido. Coloque uma luz forte no interior abrindo a tampa traseira e veja, num local escuro, se existem fugas de luz, principalmente nas esquinas onde se encontram as dobras.
  4. A lente tem fungos, marcas nas camadas anti-reflexo ou no vidro, ou aparenta estar baça com uma espécie de névoa? Se sim, então a lente tem problemas, e mandar limpar muitas vezes não os resolve de forma eficaz, embora as lentes não sejam difíceis de limpar. Verifique se a rosca do filtro está intacta, ou tenha sofrido alguma pancada.
  5. O sistema de focagem da lente funciona ou está preso? Se rodar com dificuldade, o mecanismo necessita de ser limpo e lubrificado, e quase sempre ajustado.
  6. Veja se a focagem é precisa no infinito. Coloque o anel de focagem nesta posição, abra a tampa de trás, coloque ou um despolido ou uma superfície translúcida, e com uma lupa confirme se a imagem (invertida) está focada. Se não estiver, ou a lente necessita de ser ajustada ou, mais frequente, o telémetro ajustado a esta posição.
  7. O obturador arma e dispara? As velocidades disparam, principalmente as lentas entre 1 e 1/15 segundos? Soam-lhe mais ou menos fiáveis? Caso exista alguma incongruência num destes parâmetros, o obturador tem invariavelmente destino marcado para o mecânico…!
  8. Abra a tampa da câmera onde está o filme, e confirme se a placa de pressão do deste não tem riscos ou marcas e está adequadamente fixa.
  9. Verifique se o mecanismo de transporte do filme funciona adequadamente, colocando um filme inutilizado e que sirva para este efeito.
  10. Funciona tudo? Compre! Não funciona, avalie e renegoceie novo valor, tendo em conta um orçamento de um mecânico especializado.
Zeiss Ikon Super Ikonta IV 534/16, negativo 6x6, objectiva Tessar 3.5/75mm
Zeiss Ikon Super Ikonta IV 534/16, negativo 6x6, objectiva Tessar 3.5/75mm

 

Caso siga estas indicações, não terá problemas de maior em adquirir um modelo funcional, que lhe pode fornecer bons momentos lúdicos e recreativos, eventualmente produtivos. Usufruir de uma máquina destas é deveras recompensador, e o tamanho dos negativos dão aquela dimensão extra que lhe proporcionarão um acréscimo de qualidade, mesmo que a objectiva seja menos boa. Afinal tamanho compensa, pelo menos no que a negativos diz respeito…!

Conclusão

Lembre-se sobretudo que este tipo de câmeras não são para fotografia de acção ou instantâneos dos seus filhos, e que estão a anos luz da fotografia digital contemporânea, no que ao processo fotográfico se refere. Requerem várias operações, e mesmo que desenvolva alguma destreza com a prática, nunca será um aparelho para aquele tipo de imagens, como por exemplo uma SLR o é. Temas paisagísticos, como natureza ou espaços urbanos, retrato fixos ou natureza morta, por exemplo, serão mais adequados. Não quer dizer que não a utilize para todo o tipo de temas, mas existem melhores opções no mercado, se o seu objectivo é mais a imagem final do que o processo fotográfico.

Além disso, estas câmeras são em certa medida frágeis, principalmente o fole, que facilmente pode ser danificado. Mas se utilizadas de forma consciente e respeitando toda a mecânica do equipamento e processos fotográficos, podem fornecer imagens de qualidade inquestionável. Uma máquina digital mediana atual, mesmo muitas topo de gama, ainda não conseguem produzir o mesmo nível de exigência fotográfica do que as imagens fornecidas por um rolo 12o nestas câmeras de fole, seja qual for o formato. Somente meia dúzia de câmeras digitais o conseguem, mas à custa de milhares de euros, coisa muito pouco acessível ao comum dos mortais.

Mas a escolha de uma plataforma fotográfica deste género, não está somente relacionada com a qualidade final da imagem, mas antes com todo o ambiente que emana à volta dela, desde a preparação até ao resultado final. É um processo pausado, algo lento, que requer foco, concentração e conhecimento adequado dos passos a dar, além de alguma familiarização com conceitos básicos de fotografia. Podendo até estranhar-se ao princípio, facilmente se entranha, principalmente quando os resultados começam a aparecer, e aí o ciclo fecha-se, todo o processo está completo… E é fantasticamente recompensador.


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