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Contax IIa red dial (RD)

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Contax IIa red dial (RD)

Como fotógrafo não tenho dúvidas que uma SLR é bem mais produtiva que uma telemétrica, seja qual for a perspectiva. Mas também como fotógrafo, sinto que operar com uma câmera de telémetro me aproxima mais da fotografia. É uma conclusão um pouco metafísica, mas presumo à medida que for experimentando e fotografando com diferentes câmeras, devo chegar a uma conclusão um pouco mais cartesiana. Sei no entanto que numa SLR despacho mais a fotografia, enquanto numa câmera de telémetro penso em todos os parâmetros antes de accionar o disparador. E é muito provável que um destes vá falhar, tal o ritual por vezes, e algum passo fica pelo caminho!

Antes de fazer uma análise mais detalhada às câmeras e demais engenhos que aqui publico, gosto de as experimentar por algum tempo até sentir que tirei praticamente todo o partido das suas potencialidades. Vou disparando temas e assuntos vulgares, por vezes simples registos, para analisar unicamente as características do material. Foi o que fiz com a Contax IIa, câmera que adquiri em conjunto com uma Sonnar 5cm 1:2, e que desde o primeiro momento me senti fortemente atraído a utilizá-la de forma mais constante e assídua.

É uma câmera com a qual fotografo com extremo prazer, diria quase com delírio fotográfico. Que bela câmera…! Sente-se todo o peso histórico da Zeiss Ikon em tão belo pedaço de maquinaria. Relativamente compacta, sinto a solidez da precisão mecânica a cada disparo e embora tenham mais de 70 anos existência, são hoje aparelhos intemporais. Uma boa lubrificação e afinação, venham outros 70. Que dizem a isto Nikon F5, Canon EOS 1 e companhia…?

Contax IIa com lente Carl Zeiss Jena Sonnar f=5 cm 1:2

 

Aproveitei estas férias estivais para a tornar minha companheira, e testá-la profundamente em várias situações. Na realidade desde há uns 2 meses que a utilizo compulsivamente, e para afinar mais a experiência, juntei à Sonnar 50mm f:2 que vinha com o corpo, uma Biogon pós-guerra 35mm f:2.8 e uma Jupiter 85mm f:2 de 1951, cópia da Sonnar da mesma focal, ainda, aparentemente, com vidro Carl Zeiss original. Cheguei a distintas conclusões após vários rolos queimados a alta temperatura, sobre as quais falarei ao longo deste artigo, mas adianto que foi tal a química que para não ficar descalço numa eventualidade, adquiri, ao preço da chuva lá em cima no país das auroras boreais, uma Kiev 4, como corpo de reserva. Esta, como esperado, com uma qualidade de construção um pouco aquém, mas com uma operacionalidade para além do esperado.

Prepare-se caro leitor…! Vá buscar uma chávena de chá camomila com umas bolachinhas e assente sossegados arreiais numa cadeira confortável, porque falar da Contax em meia dúzia de linhas é manifestamente insuficiente. Este artigo é algo longo, mas no final ficará a saber um pouco mais acerca desta fantástica câmera e, quem sabe, não sairá com vontade de adquirir uma para fazer gostinho ao dedo, só por causa do bichinho, daquele que incomoda cada vez que vemos uma câmera interessante…!

Era uma vez uma Leica

Começar um curto enquadramento histórico da Contax pela concorrente Leica, é pouco contextual e estranho, mas é praticamente incontornável dada a grande importância do lançamento de uma pequena câmera de 35mm, que viria a revolucionar a fotografia e proporcionar novo rumo nos acontecimentos.

Poder-se-ia dizer, era uma vez uma empresa, Ernst Leitz Optische Werke, que após insistência de um novo conceito de câmera projectada por um dos seus funcionários nos tempos livres, Oskar Barnack, lançou no mercado um modelo de aparelho fotográfico que viria a revolucionar a fotografia, decorridos que iam os ano 20 do século passado: a Leica I…! Imediato sucesso de vendas se tornou, sendo o seu reduzido tamanho com lente colapsável talvez a chave responsável por este sucesso, numa época em que tamanho era documento. Uma coisa tão pequenina num mundo de gigantes, toda piripipi, com uma lente de elevada qualidade, só podia dar nisto. Uns anos mais tarde o gigante Zeiss Ikon de Dresden, pega neste conceito de câmera e lança a Contax, destinada a ser melhor que a Leica em todos os aspectos, posicionando-se na mesma faixa de mercado e com ela competindo directamente, chegando a ser considerada pela maioria dos profissionais, melhor câmera. A Contax surge assim num precioso e oportunístico momento financeiro para aproveitar uma faixa de mercado por explorar, aberto pela Leica, e que muitas vendas prometia, como efectivamente se veio a confirmar. A produção da Contax resultou num fantástico sucesso de vendas, com enorme retorno financeiro para o grupo Zeiss Ikon.

Leica Ia 1927 - © Kameraprojekt Graz 2015 / Wikimedia Commons / License: CC-BY-SA 4.0
Leica Ia 1927 - © Kameraprojekt Graz 2015 / Wikimedia Commons / License: CC-BY-SA 4.0

 

Durante alguns anos estas duas marcas dominaram o mercado, melhorando o modelo anterior ou do concorrente a cada novo lançamento, para gáudio e benefício dos consumidores. Após a série I e II, a Leica prossegui com a série III com a produção das variantes e sub-variantes a, b, c, d, f, e g até 1954, altura em que lançou a Leica M3; a Contax, mais contida neste aspecto, produziu os modelos I, II e III, IIa e IIIa, numa intervalo de tempo entre 1932 e 1960. Em 1961 deixou de aparecer nos catálogos da marca, e se bem as suas vendas continuaram com as reservas de stock dos grandes revendedores, foi lentamente desaparecendo das vitrinas sendo substituída pela Contarex, que nunca atingiu a popularidade das Contax, muito devido essencialmente aos exorbitantes preços tabelados.

Contas feitas, parece ser no entanto que a Contax sempre esteve uns passos à frente da Leica, pelo menos até à introdução do modelo M3 desta última, que volta uma vez mais a mudar o paradigma (tal qual como em 1925 com o lançamento da Leica I). Ciclos de disparo na ordem de grandeza dos 400.000, cortinas verticais em metal que permitiam atingir velocidades de 1/1000 e posteriormente 1/1250, mais alta velocidade máxima de sincronização flash, baioneta desenvolvida para fácil substituição de objectiva (a Leica utilizava o sistema proprietário M39, de rosca), sistema de telémetro amplo portanto mais preciso, robustez mais acentuada embora dimensões um pouco maiores que a Leica, costas amovíveis para mais fácil colocação do filme, entre outros aspectos menos conhecidos relacionados essencialmente com detalhes de engenharia mecânica. Acho que se vivesse na altura, iria querer uma…! 60 anos depois, tenho uma…!

Vista frontal da Contax IIa

 

Depois veio a guerra, a 2ª, e mudou tudo. A fábrica em Dresden foi arrasada, assim como a cidade, e com isso os planos da Zeiss Ikon para o futuro da Contax; o novo protótipo, Contax IV, cristalizou-se em menos de meia dúzia de aparelhos construídos aos bocados que apenas sobreviveram reduzidos a uma frágil existência para contar a história. Com a fábrica em escombros, só restava redesenhar de memória a Contax II e III, desta feita em Stuttgard. Alguns modelos ainda foram produzidos na cidade de Jena, sob ocupação e jurisdição soviética, mas segundo rezam as histórias, apenas distribuídas on location por funcionários e agentes do governo, coisa de pouca dura. Na realidade, toda a maquinaria assim como maior parte de técnicos e especialistas tinham sido recambiados de Jena para a Ucrânia onde se iniciou um processo de clonização dando início às famosas câmeras Kiev e lentes Júpiter, cópias fiéis das Contax e Sonnar, originalmente de elevada qualidade, mas imediatamente a seguir, quando o stock original acabou, de qualidade mais duvidosa. Foi em Stuttgard no entanto, cidade sob jurisdição aliada (americana), que se iniciou do zero o planeamento, montagem e produção das novas Contax, os modelos IIa e IIIa. E assim, das cinzas qual Fénix renascido, nasceram estes modelos transformando-se numa das mais prestigiadas câmeras de telémetro do seu tempo.

Logo a seguir vieram os japoneses, que no pós-guerra iniciaram um processo de reabilitação de toda a sua indústria, fotográfica incluída, surgindo a cada ano modelos substancialmente mais baratos e acessíveis, com grande qualidade de construção e fiabilidade operacional, sem contar com as cópias da Leica que entretanto foram surgindo. Canon, Nikon, Minolta, Chiyoca, Konica, Nippon, etc., etc., invadiram o mercado ocupando cada vez mais o lugar reservado tradicionalmente às marcas alemãs. A Zeiss Ikon, numa estratégia de novos mercados, começou a apontar baterias para as SLRs e a desenvolver este conceito que muito prometia, acabando necessariamente por cessar a produção dos modelos Contax. Uma era se diluía nos desígnios da história outra no entanto surgia com esperança em novos mercados e tecnologias. As Contax ficariam para a história como marca pioneira e um dos mais promissores e fantásticos sistemas fotográficos jamais construídos, sendo ainda hoje bastante valorizadas e procuradas, não só por coleccionadores mas também por fotógrafos nostálgicos e menos nostálgicos… Como eu!

Primeiras impressões

Sólida, muito sólida… E pesada, mais que a maioria, sem dúvida! Peso que amortece o forte torque do disparo que, pelo menos na minha, tem uma quantidade de movimento bastante presente sentindo-se um clack seco com algo de vibração, no entanto bastante mais silencioso que uma SLR. Este é, na realidade, e a par do tamanho compacto, um dos aspectos que mais me atrai nas máquinas de telémetro: o disparo discreto.  Gosto de passar despercebido nos momentos mais intimistas, até porque nunca seria um Bruce Gilden com a sua abusiva capacidade de intrusão. Esta Contax tem esse clássico toque vintage na hora do disparo, o que a torna, na minha perspectiva, bastante mais atraente. Creio no entanto que se esta máquina tivesse mais afinada e lubrificada, o ruído aproximar-se-ia de uma Leica III, como recentemente tive oportunidade de experimentar.

De notar ainda a facilidade e precisão do foco. Devido ao facto de as janelas do visor e do telémetro estarem a uma razoável distância uma da outra, contribui seriamente para esta precisão, e na realidade praticamente todas as minhas imagens a plena abertura saíram focadas. Algumas excepções com a 85mm, mas nestas focais é bem mais difícil acertar o foco, o que se compreende.

Roda das velocidades e contador de exposições.

 

Gosto especialmente do selector de velocidades, embora admita que não seja a coisa mais prática do mundo. Mas levantar a roda de avanço de filme, girar o selector para a velocidade pretendida e bloquear esta, é mais um daqueles gestos que me faz mergulhar na identidade da máquina, aquilo que efectivamente pretendo quando fotografo. Não só captar imagens, mas usufruir plenamente dos pequenos caprichos destas. Já o rebobinador de filme é outra coisa e às favas o espírito clássico: irrita-me. Dar ao dedo a enrolar uma bobina de 36 exposições deve equivaler 10 minutos a trote no tapete do ginásio. Os dedos ficam no limite das cãibras, e o desespero é directamente proporcional às voltas da coisa.

Mas colocar o filme é bem mais fácil que nas Leicas originais, da I à III. Nestas pode ser uma manobra frustrante e algo demorada, mas na Contax a tampa traseira sai toda, deixando espaço de manobra para colocar o filme de forma mais fácil e rápida, à semelhança das mais recentes SLRs. Mas atenção, não perder o carreto de enrolar o filme, peça solta que facilmente se evapora e desvanece no meio da folhagem ou outra coisa qualquer, como a mim me ia acontecendo um par de vezes.

O temporizador, relógio como alguns lhe chamam, é de agradável manobrabilidade, para mim pelo menos que o utilizo frequentemente. E não é só pelo seu tamanho substancial mas pelas várias posições de armar o braço, que permitem diferentes tempos de temporização. Bastante agradável, principalmente quando não se tem de ficar à espera que a corda termine toda de desenrolar…!

Famosa lente Carl Zeiss Jena Sonnar f=5cm 1:2

 

Gosto especialmente quando adiciono as lentes ao corpo; fica tudo mais composto e equilibrado. Adquiri uma Biogon 2.8/35mm que casa de forma perfeita com o corpo. De um metal cromado e brilhante, sólida como poucas, tem ainda o bónus de ter uma qualidade excepcional. Mas não só esta, como também a Sonnar 2/50mm colapsável, que transforma o conjunto numa unidade bastante agradável e compacta, com a já reconhecida qualidade, sendo que na altura esta lente era considerada a melhor entre as melhores. Especial atenção deve ser dada ao facto de ser colapsável. É necessário perceber bem se está estendida na sua posição final, ou retraída para mais fácil transporte. Nesta posição não funciona, e as imagens ficam foram do plano de foco resultando em fotografias completamente desfocadas, como a mim me aconteceu ao início por diversas vezes. Para a colocar na posição normal, é necessário extraí-la e rodar no sentido dos ponteiros do relógio para a encaixar na posição final.

Vista de cima da Contax IIa com Jupiter-9 cromada de 1951
Vista de cima da Contax IIa com a Jupiter-9 f= 8,5cm 1:2, cromada, ainda com o nome em cirílico - Юпитер 9. Lente de 1951.

 

Para compor o ramalhete, mandei vir uma Jupiter-9. Não sendo tão compacta como as outras duas, o seu acabamento cromado e o típico look dos anos 50, de 1951 para ser mais preciso, empresta ao conjunto aquele ar vintage que inebria almas tímidas a dois dedos de conversa descomplexada. Mas esta é especial, e além de cara, não foi fácil de encontrar; teve de vir dos Estados Unidos, onde, paradoxalmente, se encontra material deste período pós-guerra em quantidades industriais – existe uma razão para isso, tema interessante, mas para outro artigo.

Com os despojos da guerra, os russos conseguiram deslocar grande parte do stock da fábrica de Jena para a Ucrânia, mas o stock foi-se acabando nos anos seguintes. Em 1949 estava praticamente extinto, altura em que deitaram mãos à obra para produzirem os seus próprios materiais através de outras matérias primas. Esta cópia da Sonnar ainda foi montada com vidros originais da fábrica de Jena. Foi testada lado a lado com as Carl Zeiss Sonnar originais, e as características são absolutamente idênticas: elevado contraste, razoável resistência ao flare, excelente cor, com o bónus de ser ligeiramente mais nítida a plena abertura. O mesmo já não acontece com as Jupiters posteriores, que se bem ainda preservam o pedigree da marca, a qualidade é inferior, e isto especialmente acentuado nas décadas seguintes. As imagens tiradas com esta e outras lentes (consultar Flickr aqui), não têm qualquer pós-produção a não ser um ligeiro toque no contraste, algumas nem sequer isto. Provam bem a qualidade da lente, embora o scanner utilizado, Minolta Dimage Scan Elite II, não sendo mau de todo também não está à altura dos acontecimentos.

Contax IIa ao pormenor

As Contax IIa e IIIa surgiram já depois da 2ª grande guerra, em 1950. Tiveram de ser todas refeitas, e embora alguns dos materiais utilizados fossem de menor qualidade, tornaram-se no entanto muito mais fiáveis e precisas. A Contax IIa, a minha uma red dial, é a última evolução desta linha de câmeras. Sucede à black dial e as diferenças entre uma e outra resumem-se à cor dos marcadores das velocidades e à inclusão de um terminal de sincronização flash. Na red dial os marcadores são pretos de 1s a 1/25 a preto, 1/50 (velocidade de sincronização máxima) é verde e os restantes vermelho, enquanto que na black dial são todos de cor negra.

A série III distingue-se da II pela inclusão na parte superior da máquina de uma estrutura que alberga o fotómetro de Selénio, tornando-as substancialmente mais pesadas e menos compactas. É difícil no entanto encontrar um fotómetro que esteja funcional, pois normalmente perdem sensibilidade à luz ao longo dos anos. Assim a IIIa é a IIa com fotómetro e a III é a II também com fotómetro. Paradoxalmente, as II e IIa são mais procuradas precisamente por serem mais compactas, leves e maneirinhas, diminuitivo interessante que se encaixa perfeitamente no caso, logo um pouco mais caras que a série III. Aqui é caso para dizer, quanto mais peso menos euros…!

Contax IIa com Jupiter-9 cromada de 1951
Contax IIa com Jupiter-9 cromada de 1951

 

Mas desde o longínquo ano de 1932 que a Contax foi sofrendo modificações que iam resolvendo algumas deficiências e limitações de fabrico. Da Contax original para o modelo II (III) melhorias significativas foram introduzidas, e deste para a IIa (IIIa) o salto qualitativo foi substancial, muito devido ao facto de serem redesenhadas de raíz. Entre pequenas alterações e afinações, talvez as mais substantivas sejam a redução de tamanho da II (III) para a IIa (IIIa), melhorias do obturador entre as quais substituição das lamelas da cortina por um material mais leve (dura-alumínio), um acabamento cromado de melhor durabilidade e qualidade, inclusão de um terminal de sincronização flash, cobertura em pele de superior qualidade, entre outras. Estas melhorias provarem ser de capital importância, transformando o modelo num das mais fiáveis e precisas câmeras da altura, muitas vezes primeira escolha de profissionais da área.

Uma característica a destacar nestas máquinas, são a capacidade que o telémetro tem para não desalinhar com a passagem do tempo. Mantêm-se com o foco preciso durante décadas, devido ao sistema robusto e estável com que foram construídas. O espaçamento entre a janela do visor, por sinal de visualização algo medíocre, e a janela do telémetro, é talvez o maior entre todas as máquinas deste género, sendo que na Contax original, era ainda superior.

Contax IIa vista de baixo.

 

A baioneta Contax é muito peculiar. Com o intuito de reduzir o tamanho das objectivas e pensado para as focais de 50mm sem anel de foco, foi desenvolvido um sistema helicoidal de focagem no corpo da máquina, accionado por um pequeno anel na parte superior deste, junto ao selector de velocidades. Possui adicionalmente outro anel, exterior este, onde encaixam objectivas de focais que não 50mm, podendo estas serem focadas tanto pelo anel de foco da máquina como pelo da objectiva, se bem que nas focais superiores a 50mm não seja muito recomendado. A Nikon, que começou por imitar a Contax nos modelos originais, foi a única marca a optar por esta baioneta em detrimento do LTM (Leica M39), no entanto construída com um pitch ligeiramente diferente, o que leva a que as lentes de um não atinjam o infinito de forma precisa no corpo do outro. Têm invariavelmente de ser ajustadas, especialmente nas teleobjectivas, por isso olho na hora de fazer este cruzamento.

Como a Contax foi pensada desde a origem para ser um sistema abrangente e completo, a variedade de lentes e acessórios é substancial. Um total de 16 lentes foram construídas, desde 21mm (a 1ª do género) até 500mm, sendo que todas posteriores à guerra possuíam camadas anti-reflexo, conceito originalmente criado pela Carl Zeiss, mas sinalizado por Hitler como alto segredo militar. Estas camadas eram normalmente assinaladas com um “T” inscrito no anel da objectiva. As lentes produzidas até 1945 tinham impresso no anel frontal “Zeiss Opton”, as posteriores a este período “Carl Zeiss”. Acessórios e lentes para macrofotografia e microfotografia também foram fabricados, assim como um variado conjunto de visores universais ou dedicados, com correctores de paralaxe. Pessoalmente utilizo um outro visor Zeiss Ikon, o modelo universal B/L 427/32, com linhas magnificamente luminosas para 35mm, 50mm, 85mm e 135mm, com a grande vantagem de ter somente de prestar atenção à paralaxe do enquadramento vertical.

A concorrência

Este modelo, como já vimos, surge para concorrer com a Leica e na altura competem ambos pela liderança de mercado, sendo o modelo III desta marca o concorrente directo, destacando as versões F e G como rivais de mesmo nível. Confesso que difícil é no entanto decidir inequivocamente por uma ou por outra marca, e nestas coisas a internet é pródiga, ora exaltando as virtudes de uma ou os defeitos de outra. Na minha perspectiva, é mais justo e correcto colocar a fasquia condicionada ao gosto de cada um, pois ambas marcas oferecem as mesmas soluções de qualidade seja qual for a marca ou o modelo.

Particularmente, e não tendo ainda muita experiência com Leica mas, em linguagem teatral, já tendo ensaiado o suficiente, tenho uma ligeira queda para a Contax, essencialmente por causa das lentes. Não tendo o tal “look” Leica tão propalado, têm no entanto um pedigree muito acentuado do qual sou apreciador, e considerando lentes do mesmo periodo, a Contax leva vantagem em termos de qualidade, com um ligeiro ascendente. Aceito no entanto que possa não só ser subjectiva esta afirmação mas também algo tendenciosa mas, hei… é a minha opinião!

Mas na década de 50 não era só Contax e Leica; existiam outros que jogavam na mesma liga, principalmente marcas japonesas, com sistemas modulares completos e em que a qualidade de construção, fiabilidade, excelência das lentes e operacionalidade se tornaram um assunto sério de concorrência, tanto para a Zeiss Ikon como para a Ernst Leitz. Nikon série S (de 51 aos anos 60), Canon II a IV, VI, P, 7 e 7s (finais dos 40 até perto dos anos 70), Chiyoka, Minolta, Konica, Nikka, Yashica, etc., etc., começam a engolir fatias sucessivas de mercado afirmando-se cada vez mais como fortes alternativas, mais baratas e de fácil aquisição. Só como referência, a Canon 7s é um modelo que não fica a dever nada à Leica e a Nikon, com as suas S3, SP e S4, levaram o conceito Contax a uma categoria de excelência (tenho para mim que estas rangefinders da Nikon são as melhores de um período compreendido entre os anos 50 a 60).

O que é certo é que quem esteve para durar e ainda dura é a Leica. Muito por culpa do modelo M3 lançado em 1954, que anunciou nova página não só para a Ernst Leitz GmbH, como para o resto de constructores e fabricantes, que à vez foram cedendo os seus modelos de telémetro pelas reflex, não resistindo à chamada do mercado. E a Contax finou-se por estes motivos, pois só para se ter uma ideia, um ano depois do lançamento da M3, as vendas da Contax IIa/IIIa foram abalroadas para metade dos valores de facturação…! E já com os projectos da Contarex em marcha (protótipos em estudo desde o final dos anos 40, segundo parece), a Contax estava já com destino marcado.

Em resumo

O epítome com o qual definiria a Contax IIa, seria a de um sólido tanque Alemão com um preciso relógio Suiço no interior. Quando se fotografa com ela, sente-se esta ambivalência constantemente, seja no transporte e manuseamento, seja durante o acto fotográfico. A qualidade é inquestionável, a operacionalidade da máquina um mimo e a sintonia entre câmera e lentes absolutamente harmoniosa, principalmente se a pequena roda de foco e o anel da objectiva estiverem afinadas. Para mim foi uma surpresa ao princípio, e depois de estranhar lá entranhei.

Um dos aspectos mais salientes é a precisão de foco. Raramente falho o ponto de focagem, mesmo a plena abertura. Combinada com a qualidade das lentes Carl Zeiss e mesmo com as Júpiteres, as imagens saem invariavelmente nítidas, cheias de cor e contraste, um bónus para um sistema tão antigo, o que raramente acontece com conjuntos deste período. Avanço do filme, alteração dos parâmetros de velocidade, utilização do temporizador ou troca de filme, são processos que se tornam naturais, mesmo estando habituado às SLRs. Aqui não estranhei nada…!

Diria que o lado menos prático é a pequena janela do visor, algo acanhada e projectada somente para 50mm, sem linhas de enquadramento para outras focais. A inexistência de um sistema que compense a paralaxe também limita um pouco o enquadramento. Temos de conhecer bem a máquina e ser criativos para imaginar onde parará o objecto em foco ou se os limites estão dentro ou fora. Nada de extraordinário para os estandartes da altura, mas uma chatice para hábitos mais recentes.

A baioneta proprietária e o valor exagerado das lentes Carl Zeiss, limitam um pouco a escolha da Contax. Mesmo que se possam utilizar lentes Jupiter e Nikon, o infinito destas tem de ser ligeiramente afinado, principalmente acima de 50mm, e mesmo as Jupiteres por vezes necessitam de uma pequena adaptação de foco . Compreendo por isso que as Leicas possam ser mais atractivas. As opções em torno da baioneta M39 são bastante mais abrangentes, desde simples alternativas baratas até às inflacionadas lentes originais.

Mesmo com tendência para fotografar cada vez mais em médio e grande formato, um triunvirato de objectivas com a Contax IIa será sempre um dos sistemas satélites com o qual arrancarei para alguma missão fotográfica, senão o sistema principal, como algumas vezes tem acontecido. Comigo a fotografia não se resume tão somente à singularidade da imagem final. Todo o sistema tem de estar envolvido no processo: eu, o material fotográfico e o objecto a registar. Quanto mais harmoniosa esta cadeia, mais a fotografia se torna lúdica, recreativa e recompensadora. Com a Contax IIa usufruo de enorme prazer no acto de fotografar e uma recompensa assinalável nas imagens registadas. Estando satisfeito, o que necessito a mais para além de uma Contax na mão?

Características técnicas

Modelo: Contax IIa
Número de série: F 21o61
Marca: Zeiss Ikon
Fabricante: Zeiss Ikon, Stuttgard, Alemanha
Ano de fabrico: inicio de produção em 1954 e fim em 1957
Corpo: metal cromado revestido a pele
Obturador: plano focal com cortinas metálicas e deslizamento vertical, 1/1250 a 1 s, B e T
Sincronização flash: 1s a 1/50
Filme: filme tipo 135 ou 35mm, 24x36mm
Célula: não
Visor: incorporado no telémetro
Focagem: telémetro por justaposição de imagem no visor, acoplado com objectiva, ajustado por anel no corpo da máquina ou na objectiva
Temporizador: sim, variável de 2s a 10s
Sincronização flash: sapata de suporte no corpo da câmara, terminal pc de sincronização atrás no corpo
Peso: aproximadamente 0,510 kg (18 oz)
Bateria: nenhuma
Outras características: avanço e rebobinagem do filme por rotação de botão, contador de fotogramas, tampa traseira independente aberta por dois botões na base da câmera.

 

 

NOTA: se quiser ver algumas imagens tiradas com esta câmera, consulte o flickr aqui. Fica a indicação que não foram alteradas em pós-produção, apenas foi dado um pequeno toque no contraste, podendo apreciar-se as fotografias no seu aspecto mais cru. Os filmes utilizados pertencem a um lote de Fuji Sensia 100, expirados há cerca de 10 anos, daí a presença notória de grão e em algumas imagens as cores um pouco distorcidas.


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