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Filmes antigos #1: Agfas Isopan ISS e Super Pan

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Filmes antigos #1: Agfas Isopan ISS e Super Pan

Tenho para mim que as imagens digitais são demasiado perfeitas. Não é que não aprecie o digital e de repente me apeteça insultá-lo, nada disso, até porque utilizo com alguma frequência, mas para coisas mais curriqueiras ou trabalhos para a minha carteira de clientes apressadinhos, do género telefonam às 9h, chega o produto por estafeta às 9:15h, fotografo às 9:30h, edito às 9:45h e às 10h está a ser enviado por wetransfer enquanto bebo um cafezinho nas calmas e fico com o dia feito logo às 10h da manhã…! Que jeitaço dá o digital…!

Mas se quiser uma imagem mais artística, apelativa e intemporal, tenho necessidade de tratar logo a coisa com filme. Preciso de algo menos plastificado, mais distorcido e orgânico. Dou frequentemente por mim a ir ao frigorífico, não para beber uma cuca ou sacar uma salada vegan ou até uma perna de frango congelada do dia anterior, mas para desembrulhar mais uns quantos filmes fora de prazo (já domino praticamente todas as prateleiras do frigorífico e acho melhor comprar outro para a comida), colocar numa daquelas máquinas com fole ou que se espreita por cima, e sair por aí a ver como a coisa resulta.

Esta ideia de utilização deste tipo de filmes não é descabida de todo. Além da aquisição de baixo custo, por vezes a degradação da película dá um impulso estético a algumas imagens que por si só seriam banais. É verdade que é um risco, mas um risco mais ou menos (des)calculado que pode resultar, principalmente para quem procura resultados diferentes. Do ponto de vista artístico pelo menos, é bastante interessante, embora os resultados possam ser bastante inconsistentes de filme para filme, até mesmo no próprio filme.

Esta rubrica que inicio com este artigo, é precisamente dedicada a estes filmes antigos e fora de prazo. Basicamente a ideia é fotografar com eles, revelar, analisar os resultados e expor os dados para que a malta se possa eventualmente inspirar a fazer o mesmo e partilhar junto da comunidade os resultados. Se por ventura já tiver experiência neste campo, comente mais abaixo e divulgue também a sua experiência que será com certeza apreciada.

Se tiver filmes antigos de qualquer formato, não expostos, com mais de 35/40 anos, a cores ou a preto e branco, e sobretudo que já não se fabrique, e se sentir como eu aquele bichinho de saber o que é capaz ainda de dar, mas não tem tempo nem pachorra para levar a bom porto essa curiosidade, contacte-me que eu trato do assunto e coloco a revisão aqui no blog com referência ao nobre dador. Basta utilizar qualquer contacto do blog.

Sobre os filmes

São com dois filmes da AGFA que começo esta série de artigos: o AGFA SUPER PAN e o AGFA ISOPAN ISS. O primeiro com sensibilidade nominal de 200 ISO (24 DIN) e o segundo 100 ISO, ambos a preto e branco, pancromáticos, ou seja, sensíveis de igual forma a todas as cores do espectro visível, registando cada uma delas variadas nuances de cinzento.

Recebi os ISOPAN ISS incluídos na compra de uma Rolleiflex e o SUPER PAN uma simpática oferta de um amigo, para efeitos de teste. Não me parece que tanto um como outro tivessem sido adequadamente armazenados, antes deixados num canto com outro material fotográfico vintage, muito menos colocados num qualquer sistema de refrigeração. Fico com curiosidade de ver como reagirão nestas condições, e se os resultados serão extensíveis ao resto do pacote, embora tenha as minhas dúvidas.

Agfa ISOPAN ISS 100 ISO, expirado em Janeiro de 1979

 

As embalagens exteriores, em papel cartonado, apresentam uma bela cor de laranja com umas resplandecentes manchas azuis luminosas onde se destacam as letras do filme e da marca, um design retro-apelativo agora muito apreciado. No interior, invólucros de alumínio cor verde protegem o filme, e normalmente volto a colocar lá dentro os filmes após a exposição, para voltarem de novo ao frigorífico, pois os halos tendem a alastrar muito rapidamente após a exposição, a menos que sejam “congelados”.

Não se encontra muita informação acerca destes filmes. Pelo que percebi, tanto o ISOPAN ISS como o SUPER PAN foram produzidos entre os anos 30 a 60, e sofreram algumas alterações ao longo das décadas. Os meus rolos têm data de expiração Janeiro de 79 e Janeiro de 81 respectivamente. Parece ser que o ISOPAN responde melhor com um filtro amarelo claro em exteriores, e verde claro com luz de interior. Acho que vou experimentar!

Agfa SUPER PAN 200 ISO, expirado em Janeiro de 1981

 

A AGFA foi uma das mais importantes marcas da indústria fotográfica do século XX com a construção de câmaras, projectores, filmes e papéis fotográficos, entre outros. Dissolvida e dividida em várias companhias, hoje produz filmes unicamente para a indústria da fotografia aérea, e, ao que parece, a Rollei compra-lhe parte destes filmes rotulando-os posteriormente para o mercado de consumo. Sinto alguma simpatia por esta marca, e gosto do que ela produziu no passado, principalmente durante os anos 50 e 60. As câmaras são do melhor que se fazia na altura, e possuo algumas que utilizo com frequência. Só como curiosidade, a Agfa Isolette III anda sempre na minha bolsa fotográfica com um rolo a preto e branco, pronta a disparar sobre qualquer coisa que mexa e tenha piada.

Fase 1: antes da revelação, 19 de Junho

Curioso o cheiro que estas embalagens emanam, algo entre o mofo antigo decadente e o químico das camadas celulósicas, que antecipam um cenário de resultados aleatórios e imprevisíveis. A data de expiração do Super Pan é Janeiro de 1981, a do Isopan ISS Janeiro de 79; estão exactamente passados 36 para um e 38 para outro, de duvidoso armazenamento e mais que provável exposição a alguma radiação, se bem que com esta sensibilidade será de esperar algo moderado. O perigo reside nos halos que se poderão formar, na colagem do papel ao filme, o que por vezes até resulta se o tema for adequado, e na perda de sensibilidade da estrutura química.

O papel que enrola o filme é, por comparação, muito mais grosso que os atuais. As Super Ikontas da Zeiss Ikon agradecem, pois o espaçamento normal entre enquadramentos nestas máquinas dependem desta grossura. Com os filmes atuais a tendência é sobreporem-se ligeiramente. As Rolleiflex acusam melhor a passagem no seu sistema de contagem das exposições com estes papéis um pouco mais grossos, e fico curioso para saber se eventualmente o espaçamento aumenta…! Espero que sim.

Agfa Super Pan e Agfa Isopan ISS, de 200 e 100 ISO sensibilidade nominal respectivamente.

 

Normalmente compenso 1 EV (1 stop) por cada par de décadas, o que dá um total aproximado de 2 e 2/3 EVs. Poderia eventualmente expôr o filme à sua sensibilidade nominal e puxar os mesmos stops na revelação, mas os resultados sairiam provavelmente mais contrastados. Prefiro uma maior riqueza de tonalidades, pelo que a primeira solução parece-me a mais adequada.

Quanto à revelação, a ficha técnica do ISOPAN ISS sugere um tempo de 6 a 8 minutos com o Rodinal numa diluição de 1:20 a 18º ou 10 a 12 minutos numa diluição 1:40 à mesma temperatura. Já tinha experimentado no D-76 com diluição 1:1, 7 minutos a 20º e não se portou nada mal. Sobre o SUPER PAN encontrei informação muito vaga, mas um bom ponto de partida poderá ser utilizar o D-76/ID-11 com um tempo de 8/9 minutos, ou até menos, numa diluição 1:1 a 20º. Creio que nesta fase os reveladores universais D-76 ou ID-11 parecem ser uma boa opção, embora um revelador anti-halo fosse talvez mais indicado, ou eventualmente uma fórmula mais recente. Como tenho vários rolos, posso sempre corrigir a fornada seguinte utilizando os resultados desta experiência.

Só como nota, o Superpan 200 da Rollei que se pode encontrar em qualquer lado, é na realidade um filme recente da Agfa comercializado pela Rollei. Possui uma estrutura química moderna e é completamente diferente do Super Pan deste artigo. A informação normalmente existente é relativa ao filme da Rollei.

Fase 2: revelação e resultados, 26 de Junho

Com os resultados na mão, a primeira grande conclusão é a grande inconsistência entre filmes do mesmo lote, em particular os ISOPANS ISS. Dos dois utilizados, embora apresentem ambos uma grande quantidade de véu, um apresenta já sinais dos tempos com alguma oxidação, halo e marcas do papel agarrado ao filme, mas o outro nem vestígios de uma ou outra coisa. Nota francamente positiva para as gelatinas que suportam a estrutura do filme, pois após tantos anos enrolados mantêm uma forma praticamente plana após revelados, sendo um absoluto regalo a digitalização.

Rolleiflex 2.8D, Xenotar 80mm, Agfa Isopan ISS 100 ISO expirado em Janeiro de 1979

 

Esta fotografia é do ISOPAN ISS e conforme se pode ver na imagem acima, vê-se claramente zonas do filme agarrado ao papel e áreas em que os detalhes desvanecem para dar lugar a um ligeiro véu, além de marcas de degradação da película. Por acaso a imagem até resultou do meu ponto de vista. Utilizar estes filmes expirados requer uma ponderação dos temas a fotografar a fim de não aparecerem surpresas, mas se escolhermos o tema certo, os resultados podem tornar-se apelativos.

Agfa Isolette III, Solinar 75mm f:3.5, Synchro Compur shutter, Agfa Isopan ISS 100 ISO expirado em Janeiro de 1979

 

Ao contrário da outra imagem, esta, de um segundo rolo, apresenta uma fantástica gradação de tons cinzentos e grão reduzido, e praticamente a película não foi afectada pelos anos, mesmo pertencente ao mesmo lote. A imagem é muito agradável, e gostava que o resto do lote se comportasse assim, embora tal não me pareça que vá acontecer. Não apresenta indícios de degradação, e pode-se dizer que é um quarentão muito bem conservado.

Estes filmes ISOPAN filmes foram revelados numa solução de stock  ID-11 durante 7 minutos a 20ºC, com uma agitação inicial de 30 segundos e 2 viragens a cada 30 segundos. Resultou claramente esta combinação, embora me pareça que possa afinar um pouco o momento da exposição e obter resultados mais consistentes com o resto do lote.

A outra película, o SUPER PAN, está ela também em razoáveis condições. O contraste é normal mas o grão acentuou-se um pouco. Não se notam sinais de oxidação ou degradação, embora a sensibilidade tenha passado de 200 para 50 ISO.

Rolleiflex 3.5F Planar 75mm f:3.5, Agfa Super Pan 200 ISO expirado em Janeiro de 1981

 

Com a compensação de 2 EVs que dei, esta imagem corresponde precisamente à leitura do fotómetro. Mesmo no ponto. Vejo um negativo bastante agradável com grande riqueza de tons, muitos detalhes nas sombras, altas luzes bastante equilibradas e com substancial acutância e definição, embora não tanta como o ISOPAN ISS (normal, este filme é 200 ISO). O revelador foi na mesma o ID-11 com um tempo de 10 minutos numa diluição de 1+1 a 20ºC e uma agitação em tudo idêntica aos outros.

Rolleiflex 3.5F Planar 75mm f:3.5, Agfa Super Pan 200 ISO expirado em Janeiro de 1981

 

Nesta imagem, com luz abundante e o sol quase a entrar no fotograma, já se nota mais o grão, principalmente nas partes mais claras da imagem, e embora a digitalização tenha ficado um pouco aquém, o negativo mostra ainda bastantes detalhes. Gosto das tonalidades de cinzento, embora me pareça que o ISOPAN tem um ligeiro ascendente vintage em relação ao Super Pan.

Conclusão

Gosto bastante dos resultados, e gosto ainda mais do que vejo nos negativos. Se bem que noto o aparecimento de um véu em toda a extensão de ambos os filmes, mais num dos ISOPANs, assim como a perda de sensibilidade e contraste, o resultado das imagens é bastante agradável, considerando que estes filmes têm cerca de 40 anos de existência. Creio que as características principais do filme estão lá, e chego à conclusão que as diferenças não são assim tão substanciais relativamente a filmes mais recentes como por exemplo os T-Maxs ou Ilford Deltas, embora existam.

Para quem gosta de imagens perfeitas e com contraste acentuado, talvez esta não seja a melhor solução, mas para alguns temas como natureza morta, retrato artístico ou fotografia abstrata, a natureza imperfeita dos filmes degradados são uma solução bastante tentadora, e na hora de contabilizar os custos, o saldo é bastante positivo.

Normalmente procuro adquirir lotes destes filmes, determino o melhor ISO de acordo com o tempo passado sobre o final de prazo, faço alguns testes com um revelador universal, e depois chapa 5 no resto dos filmes. A não ser as divergências entre eles relativamente ao estado de conservação da película, normalmente bate tudo certo. Se por ventura aparecerem umas manchas ou alguma sujidade, assumo-as e eventualmente melhora a fotografia, principalmente quando ela não é nada de jeito. Afinal um toque vintage dá logo um outro ar à coisa…!

 

 

Queria deixar aqui um especial agradecimento à Fineprint em Lisboa, que me atura há já algum tempo. Tanto o Nuno como a Ana são incansáveis no apoio às minhas pesquisas, e sempre prontos para colaborar ativamente na obtenção dos melhores resultados. Só como nota, a Fineprint é um laboratório profissional que ainda presta um serviço à maneira antiga, e em que o analógico é a prata da casa; E6, C41, preto e branco, digitalização e impressão, entre outros serviços refinados e exigentes, tanto para profissionais como para amadores. Fica ali entre o Largo Camões e o Campo Santana.


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