logo-mini
Detalhe do obturador Prontor-SVS

Em análise: Agfa Isolette III

Partilhe

Em análise: Agfa Isolette III

Esta é a segunda máquina de fole que faço uma análise aqui na Photosynthesis. E mais algumas virão, não só porque tenho uma particular atração por estas máquinas, mas também porque conhecer e fotografar com elas é não só perceber a fotografia na sua secular essência mas também fazer a passagem para outro estado da mente. O processo fotográfico não se resume tão somente à imagem final. Para esta aparecer, é necessário entrar na mecânica da coisa, conhecer a fundo o hardware, perceber as funcionalidades dos seus parâmetros e treinar comportamentos.

Gosto particularmente de fotografar com estas máquinas. Conhece-las, saber as suas manhas, e verificar que mesmo após tantos anos, continuam a proporcionar imagens tão belas como as actuais, com um carácter que lhes é muito particular. Mesmo com as suas objectivas imprecisas, pelos padrões actuais evidentemente, e a sua mecânica obsoleta, a verdade é que as imagens daqui resultantes são muito recompensadoras. Coisas como halo nas altas luzes, esquinas sem definição, pouco contraste ou desfoques esquisitos, são precisamente o dna destas lentes que eventualmente até tornam uma imagem absolutamente vulgar, em algo mais apelativo aos sentidos.

Agfa Isolette III

 

Associamos instintivamente Agfa a filmes e laboratório, e nunca relacionamos esta marca com a produção de material fotográfico. Mas foi um grande fabricante, e conseguiu não só produzir exemplares capazes de concorrer com a Voigtlander ou a Zeiss Ikon, como esteve na linha da frente em inovações tecnológicas com alguns dos seus produtos, lembro-me agora da ultra-rara Agfa Automatic 66, conhecida por estar muito à frente do seu tempo com o seu modo automático de prioridade à abertura (numa câmera de fole, imagine-se) através do seu engenhoso mecanismo pneumático. A primeira do género só como curiosidade.

Estes modelos Isolette da Agfa têm para mim a grande vantagem de serem bastante leves e compactos, facilmente transportáveis numa pequena bolsa fotográfica ou até num bolso de casaco, além de utilizarem filmes 120 que proporcionam sempre imagens de qualidade superior, pois o tamanho do negativo também conta.

De volta aos anos 50

A Agfa Isolette III é o modelo mais popular da Agfa, e o resultado final de uma série que evoluiu a partir do original Isorette, também conhecido como Jsorette, construído nos anos 30. É um modelo direccionado para o formato 120, que produz imagens 6×6 tendo sido foi introduzido no mercado por volta de 1952, tornando-se um dos produtos mais populares da Agfa.

Como curiosidade, nos Estados Unidos e a partir de 1953, este modelo ficou conhecido por Ansco Speedex Special R, fabricado na mesma pela Agfa, sendo absolutamente iguais ambos modelos, só se diferenciando no nome.

Agfa Isolette III

 

Infelizmente, e na transição para a década de 60, a maré do mercado virou-se para outro lado e a Agfa acabou com a produção destes modelos, em virtude da popular demanda do 35mm que se encontrava em franca expansão, ainda por cima balizados no outro lado do espectro pelas TLR’s que se afirmavam como a escolha ideal de grande parte dos fotógrafos.

Estas câmeras de fole marcaram várias décadas, na realidade desde os tempos pioneiros da fotografia com as suas versões mais rudimentares até às sofisticadas Super Ikontas, Super Isolettes, Perkeos, Certo Six e outras similares. Estas câmeras fecham este capítulo na história da fotografia, mas fecham com chave de ouro, pois ainda hoje continuam a dar cartas, em nichos bem particulares é certo, e ainda continuarão por muitas décadas vindouras.

Câmera na mão

Tenho várias destas Isolettes III, pelo que já podem ter uma ideia de como aprecio estas câmeras, e não falo somente das Agfa, mas também. Quando fechadas com o fole recolhido, e para câmera de médio formato, são das mais compactas que se podem encontrar no mercado; facilmente se transportam num bolso do casaco, dando-se pouco pelo seu peso, consideravelmente mais leve que por exemplo a Super Ikonta IV, da qual já fiz uma análise aqui no blogue.

Os seus comandos são simples, muito bem distribuídos, o disparo bastante suave considerando o percurso sinuoso de braços e alavancas até ao obturador. A objectiva relativamente pequena, sobretudo devido á sua abertura de 3.5 que não exige muito vidro, está muito bem desenhada e integrada no corpo, tornando a máquina bastante apelativa do ponto de vista estético, a qual considero sóbria e muito bem desenhada. A solidez das suas partes metálicas bem como a escolha dos materiais, dão-lhe um equilíbrio muito agradável que se sente na mão, um misto de robustez leve mas firme, nada mexe uma vez estendido o seu fole.

Agfa Isolette III

 

Até a tampa traseira abre da forma a que estamos habituados, e a colocação do rolo mais parece a de uma 35mm do que uma câmera de formato 120, salvo sejam pequenas diferenças. Depois de carregado, tem que se dar uma olhada à janela vermelha na tampa das costas a fim de posicionar correctamente o filme para a primeira fotografia. O avanço do filme funciona normalmente, 12 imagens no formato 6×6, mas ao acionar a roda de avanço do filme, terá sempre de dar uma espreitadela à janela vermelha e esperar que o número da frame correspondente apareça. Na Super Ikonta IV este processo é automático, bastando alinhar as setas iniciais, e depois é só avançar que o mecanismo bloqueia na momento certo. Na Isolette III não é tão sofisticado, e admito dificuldades em alguns momentos de visualizar o número que se encontra nas costas do filme, mas com atenção ultrapassa-se este pequeno obstáculo.

Considero o minúsculo e ridículo visor um pouco melhor que o da Super Ikonta IV (pelo menos para mim), embora tenha para mim que aqui todas elas pecam neste capítulo…! Até agora não encontrei nenhum modelo de fole, todas as marcas incluídas, que tivesse um visor minimamente agradável. O problema destes visores, além da dificuldade em dar com o buraco, é a incapacidade crónica de se visualizar os limites do enquadramento ou a verticalidade das linhas; é mais ou menos ali, e o melhor mesmo é colocar o elemento enquadrado no meio da imagem e contar com alguma margem para todos os lados. Acredito que a prática dê esse domínio, mas até lá muitos rolos e pestanas têm de ser queimados.

Agfa Isolette III

 

O meu primeiro rolo experimental com esta máquina (aquele que se dispara a tudo sem sentido), um Tri-X 400 ISO, saiu como deveria ter saído. Bem exposto, no ponto de focagem e sem imagens interlaçadas… Um mimo portanto! Dá para ver que a ótica tem qualidade, mas nada de exageros quando se fala da superioridade em relação às Tessar da Carl Zeiss, pelo menos nos exemplares que tenho, embora a Solinar seja uma adaptação da Tessar feita pela Agfa. A Tessar é ligeiramente superior, para já, feitas as primeiras análises, mas deixo as conclusões para depois de queimados vários rolos. É melhor que a maioria, do que a máquinas de fole diz respeito, mas para aquilo que hoje entendemos como qualidade, só com testes específicos se poderia chegar a alguma conclusão. O que conta é que gosto do que vejo, e vejo já do que vou gostar. Necessito contudo de uma viagem para a testar a fundo, e será com toda a certeza num futuro próximo que verei se consegue destronar a Super Ikonta IV na minha bolsa ou bolso.

Na prática, esta câmera funciona grosso modo como uma SLR de 35mm: levantar ao olho, focar e disparar, algo muito diferente por exemplo de uma TLR. Dar vida a uma máquina destas, e quero dizer com isto não limitar a um CLA e deixá-la no armário mas sim colocá-la de volta à rua, deverá ser uma espécie de dever para todo o fotógrafo sério que não quer perder as raízes com o pecado original. Fotografar com esta Isolette é voltar aos simples mecanismos da fotografia analógica, e mergulhar na dimensão real da fotografia, numa espécie de estado mental de quietude mística.

Detalhes técnicos

Comecemos pelo princípio: carregar o filme pode ser um problema, como já acima referido. Mas praticamente todas as máquinas de fole têm esta característica, pelo que o melhor é dar este dado como adquirido e deixar de lamentos. Tem que se fazer o acerto com a frame 1 espreitando pela janela que se encontra na tampa traseira (e que dá para ver se a máquina está carregada com filme). Depois de disparar, um mecanismo bloqueia a hipótese de fazer novo disparo, sabendo assim que tem de avançar para a frame seguinte. Várias voltas do manípulo do filme até este bloquear de novo, armação da alavanca de disparo no obturador e voilá, pronta a disparar outra vez. Não é como numa 35mm, mas a prática encarrega-se de acertar o ritmo. Não se esqueça que no formato 120, não existe rebobinar o filme; ele vai directamente de um carreto para outro.

Convém já alertar para o facto de a focagem ser desacoplada, ou seja, primeiro foca através do visor utilizando uma pequena roda escalada na parte superior da câmera, e depois transfere o valor da escala para a lente. Costuma ser muito preciso, mas também necessita de prática. Aliás, operar com estas câmeras, mesmo sendo de operacionalidade extremamente rudimentar e básica, requer prática e domínio de gestos. Tenha isto em consideração e respeite a curva de aprendizagem que chega lá.

Agfa Isolette III

 

A Isolette III pode ser encontrada com 2 tipos de obturador, Compur (normalmente Synchro-Compur) ou Prontor (Prontor-SVS). O primeiro era considerado mais sofisticado e equipava os modelos mais caros, mas segundo alguns mecânicos, o segundo é menos suscetível a avarias, embora seja considerado inferior ao primeiro. Este possui ainda um sistema de velocidades mais antigo parando em 1/300, enquanto o Synchro-Compur já utiliza um sistema de passos mais moderno com a velocidade top de 1/500 (esta velocidade raramente é atingida, devido ao enfraquecimento das molas com o tempo).

A câmara está equipada com uma lente normal Solinar 3.5/75mm, o topo de gama da Agfa, uma variação da Tessar, formada por 3 grupos e 4 lentes. Pode também a Isolette III ser encontrada com uma lente Apotar, de qualidade inferior e aberta a 4.5, sendo esta uma triplete, formando um conjunto com um preço mais atrativo. A Solinar é de qualidade superior à Apotar, daí equipar os modelos de luxo da marca, juntamente com o obturador Synchro-Compur. Esta Solinar é considerada por muitos como de igual ou superior qualidade em relação à Tessar, mas até agora n prática não foi o que constatei, embora admita que os modelos Isolette III que testei não estivessem nas melhores condições. Brevemente terei outra em condições fenomenais, e uma comparação directa com a Tessar da Super Ikonta IV dissipará todas as dúvidas.

A concorrência

Existem muitos modelos no mercado concorrentes da Isolette III. Desde os modelos japoneses aos alemães, passando por fabricantes russos, ingleses e franceses, são às dezenas as câmeras de fole no formato 120. Vale a pena dar uma olhada a algumas, maior parte nem por isso, se procurarmos um mínimo de qualidade e fiabilidade. Curiosidade, questões históricas ou mero coleccionismo podem ser razões fortes para se gostar de possuir uma ou várias câmeras destas, mas pessoalmente gosto delas para fotografar, e no que a isto diz respeito, a quantidade de câmeras reduz-se substancialmente.

Creio no entanto que os modelos produzidos pela Zeiss Ikon eram os que marcavam passo, com a Voigtlander em igual patamar. A engenharia de precisão e elevada qualidade ótica das lentes, deram sempre a estas marcas vantagem no mercado. A Agfa, com os seus modelos Isolette e Super Isolette, aproximou-se praticamente a este nível, não ficando nada atrás. Passadas já tantas décadas a fama do nome continua a dar vantagem à Zeiss, mas considero as câmeras de fole da Agfa praticamente ao mesmo nível, não fossem elas também produzidas na Alemanha.

Agfa Isolette III

 

Diria que os modelos Perkeo IIIe da Voigtlander (raro e bastante caro) assim como a Mess-Ikonta 524/16 da Zeiss Ikon, seriam concorrentes directos da Isolette III, e uma alternativa a esta câmera, ou esta uma alternativa em relação aquelas. Todas elas apresentam basicamente os mesmos argumentos, em corpos solidamente construídos, com cada modelo a brilhar mais que outro em determinado aspecto. Afinal são elas o pináculo das câmeras de fole, dos últimos modelos a serem fabricados antes de desaparecerem definitivamente da linha de produção. É uma questão de gosto, considerando que todas tenham como lente o equivalente Tessar e como obturador o Synchro-Compur.

Altos e baixos

Além do visor que já referi acima, outras debilidades da câmera são o fole, a focagem e o coating das lentes. Por partes: primeiro o fole. Embora no modelo II o fole da Isolette tenha sido revisto e materiais superiores utilizados, facto é que devido ao constante abrir e fechar acabam por aparecer pequenos buracos permeáveis à luz, principalmente nas esquinas. Um inconveniente, portanto. Na hora de adquirir uma destas câmeras, convém colocar uma luz forte por trás a fim de se confirmar que tudo está ok, ou não!

A seguir, a roda de focagem. É normal que o lubrificante original da roda de focagem solidifique com o tempo, e vai solidificar, pelo que se não rodar já sabe do que se trata. Tem que ser de tal forma fluída, que até um simples sopro a faz girar, passo o exagero. Nada que um mecânico não concerte, ou até você mesmo com alguma paciência, como já eu o fiz. Não tem ciência nenhuma. O tipo de lubrificantes utilizado pela Agfa tem essa particularidade, de secar com o tempo. É capaz de encontrar o mesmo problema também no helicoidal da lente, pelo que já sabe do que se trata.

Agfa Isolette III

 

Por último, o coating, ou seja, as camadas anti-reflexo. Se por ventura encontrar uma com fungos nas lentes, é quase certo que ao mandar limpar esta camada fique cheia de marcas, pois é muito sensível a qualquer tentativa de limpeza. Encontrar Isolettes com marcas de limpeza nas camadas anti-reflexo depois de um CLA é a coisa mais corrente, pelo que convém prestar atenção a este tema se é um daqueles picuinhas chatos.

Ultrapassados estes problemas, a Isolette III é um mimo de se utilizar. A leveza da máquina, a operacionalidade dos comandos, a fiabilidade do obturador e acima de tudo a boa qualidade da lente. Fechada, transforma-se numa pequena caixa facilmente transportável, aberta dá-lhe aquele toque vintage particular, light motif para uma boa conversa na rua com estranhos. Acima de tudo, é uma câmera para se levar de forma despreocupada numa viagem, situação na qual encaixa como uma luva.

Características técnicas

Modelo: Isolette III
Marca: Agfa
Ano de fabrico: inicio de produção em 1952 e fim em 1958
Corpo: metalizado, com cobertura sintética. Fole material plástico exterior, tecido interior.
Obturador: Prontor-SVS de 1/300 a 1s + B, ou Synchro Compur, de 1/500 a 1s + B
Lente: Solinar (versão Tessar da Agfa) 3.5/75mm, f:3.5 a f:22
Filtros: slip-on 32mm (A32)
Filme: filme 120, 12 imagens formato 6x6cm
Célula: não
Visor: telémetro
Focagem: telémetro por justaposição de imagem no visor, ajustado por roda no topo da máquina. Distância transmitida ao anel de foco da objectiva.
Temporizador: sim, até 12s
Sincronização flash: posições X e M, com socket no obturador
Peso: aproximadamente 550gr
Outras características: fole retrátil, prevenção múltipla exposição, janela verificação filme e posicionamento de frames.


Leave a Comment