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Minolta MC Rokkor 58mm f:1.2

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Minolta MC Rokkor 58mm f:1.2

Este é o meu primeiro artigo sobre uma lente vintage, pelo menos aqui, na Photosynthesis. Decidi começar pela Minolta MC Rokkor 58mm aberta a 1.2, normalmente uma lente apetecível, mas cara, seja qual for a marca. A escolha tem claramente a ver com a preferência que tenho tido nos últimos anos pela Minolta, máquinas e lentes. Normalmente presto alguma atenção a material pouco cotado na praça, pois muitas vezes são uma completa surpresa. É verdade, outras marcas são mais sonantes na indústria fotográfica, mas a Minolta foi um dos big 5*, esse quinteto composto pela Nikon, Canon, Pentax, Olympus e, claro, pela Minolta. Por alguma razão foi uma das grandes marcas do século XX e se manteve no topo por décadas e décadas.

Mas voltando à lente, consegui esta por menos de metade do que por aí se pede, mesmo tendo já uma substancial coleção de lentes desta marca. Vinha com alguns fungos, um pouco de nevoeiro e pó acumulado no seu interior, nada que 30 minutos de paciência e alguma habilidade não resolvesse. Está como nova agora! Não é definitivamente a lente mais brilhante do mercado, mas dada a relação qualidade preço entre este género de lentes vintage e as actuais, vale a pena investir numa, pois os resultados são uma bela surpresa!

Minolta MC Rokkor 1.2/58mm

 

Conheço várias versões desta lente e todas partilham a mesma fórmula ótica. A mais antiga, a MC-I (1968) e MC-II (1969) têm o anel dos diafragmas cromados e o anel de focagem em metal do género montes e vales (a segunda com vales mais pronunciados). A versão posterior é a MC-X (1969-73), exactamente a que possuo e se pode ver nas imagens deste artigo. Possui um design mais elaborado, com o anel de focagem em borracha. A última versão é a MD, na realidade 3 pequenas variações cosméticas -MD I (1973), MD II (1978) e MD III (1981) – com redução do tamanho e design mais moderno. A série MC partilha a mesma fórmula ótica, 7 elementos em 5 grupos, tudo indicando que produzam resultados similares, embora existam com certeza diferenças que variam de unidade para unidade. A série MD foi redesenhada passando a ter 6 elementos em 6 grupos, tendo sido reduzida também a focal para 50mm. Esta última série veio substituir a MC e teoricamente com melhores resultados óticos.

Como nota, de referir ainda que as análises efectuadas nesta rubrica não são científicas nem exaustivas. São o que a minha experiência dita, baseada em anos de observação e análises, e com a correspondente necessidade de determinadas particularidades para determinado tipo de fotografia, procurando sempre um determinado tipo de lente que as ofereça. Analiso o que é visível aos olhos do fotógrafo e que claramente influencia a imagem final. Nada de cálculos elaborados ou análises laboratoriais. Procuro ser objectivo, mas é sempre susceptível de alguma interpretação subjectiva que pode não coincidir com análises de terceiros. Fica o registo.

Primeiras impressões

O que salta logo à vista é a quantidade de vidro que a lente possui e a solidez da sua construção, esta última uma característica da série MC da Minolta; todas são supremamente bem acabadas. Nesta lente nada foi deixado ao acaso: metais de primeira qualidade resistentes ao desgaste, robustez substancial, borracha de focagem agradável ao toque, anel de diafragmas suave com ressaltos típicos da Minolta com passos intermédios, quantidade de vidro que dá vontade de sair e utilizar abusivamente, esmagando fotogramas uns a seguir aos outros!

Minolta MC Rokkor 1.2/58mm

 

Não é uma lente leve, portátil, como quem passeia uma pancake. Mas nada de especial, também com esta abertura não estamos à espera de menos, nem muito diferente das lentes atuais, salvo um ou outro exagero. Mas considero isto o peso da qualidade, sim, porque a qualidade também tem peso como qualquer fotógrafo sabe, sofrendo nas costas as dores das cruzes com o peso desta qualidade.

Um aspecto que me agradou bastante foi o facto de a Minolta ter conseguido manter o diâmetro de rosca para filtros da série MC, neste caso 55mm. Posso utilizar toda a minha gama anteriormente adquirida, sem estar a preocupar com novos filtros ou adaptadores. É só juntar ao saco. Convém mesmo é assegurar que coloca um filtro UV ou parecido, de preferência com qualidade para não interferir com a ótica da lente, a fim de proteger o enorme vidro que se encontra muito próximo da frente da mesma. Acidentes acontecem, e ter um enorme risco ou vários, não ajuda nada ao consolo da alma por tal preciosidade.

Lente na mão

Gosto bastante desta lente. Dá sempre a sensação que vai sair uma imagem divinal! Não sai claro, ou melhor, não sai sempre, mas pelo menos é um precioso incentivo na procura do belo e do perfeito… Acabou por fazer parte de um conjunto que considero fantástico, ao juntar-se às Rokkors MC 1.8/35mm e MC 1.7/85mm, espécie de trio Odemira Rokkor MC, uma nova banda de ver o mundo. Quando é para fotografar 35mm, é quase sempre com estas 3 lentes, e o mundo tem outra cor.

Minolta MC Rokkor 1.2/58mm

 

Antes de avançar com aquilo que penso serem qualidades e defeitos desta lente, é necessário realçar a dificuldade em utilizar a plena abertura, principalmente em planos mais aproximados, como retratos. Focar a plena abertura mantendo o foco no plano, pode dar alguns resultados inesperados, muitas vezes confundidos com fraca resolução. Não sendo uma campeã da resolução a esta abertura, esta 58mm tem mais que suficiente para manter o centro nítido, embora sofrendo do mesmo mal que praticamente todas as lentes deste período: halo excessivo. Ou seja, com cuidadosa focagem, podem-se obter resultados bastante interessantes principalmente na separação de planos e com motivos ao centro, uma vez que os cantos e os extremos têm fraca resolução. Mas, não é isto que se pretende quando se utiliza uma lente desta natureza?

Minolta MC Rokkor 1.2/58mm montada na Minolta X-700

 

Dá para ver, antes de os resultados estarem na mão ou no écran, que o desfocado dos planos secundários é interessante, muito interessante mesmo. Tem um aspecto cremoso muito cremoso (quis dizer isto mesmo), sem aquele nervosismo enervante (também quis dizer isto). Para quem tiver curiosidade veja uma imagem de uma MC Rokkor PG 1.4/50mm para entender o que quero dizer. As altas luzes apresentam-se redondas q.b., oblíquas nas esquinas mas isto já sabemos que é o resultado da vinhetagem física da lente, por isso nada a fazer.

Ou seja, misturando o desfocado cremoso com a falta de resolução nos cantos e uma vinheta natural, temos um resultado vintage muito interessante, se bem que a cor seja mais neutral do que seria desejável. Gosto bastante quando têm aquele je ne sais pas quoi dos anos 70, sendo a Konica Hexanon AR 1.2/57mm um bom exemplo. De facto, aquilo que procuro nestas objectivas está consubstanciado nesta lente. Utilizo-a tanto em retrato como em paisagem com resultados muito aprazíveis e que me dão bastante satisfação.

Em detalhe

Analisando os resultados (ver imagem) ressalta logo o dna destas lentes: halo a plena abertura com cantos sofríveis, melhoria progressiva com o incremento dos diafragmas, grandes resultados lá mais para a frente até f:11. Ou seja, retratos até 2.8 e paisagem de 5.6 a 11, por exemplo, é por onde navega este pedaço de vidro.

Bokeh
O desfoque é excelente. Já por si, aberturas a 1.2 dão excelentes desfoques, mas não é tudo. A construção da lente e a forma como estão controladas as aberrações têm uma palavra a dizer, daí as diferenças entre objectivas.

Bokeh Minolta MC Rokkor 1.2/58mm @ f:1.2 Bokeh Minolta MC Rokkor 1.2/58mm @ f:2

 

Como se pode ver pela imagem, o plano desfocado é cremoso, misterioso, etéreo… Mesmo fechando 1 ou 2 diafragmas, estas características mantêm-se, podendo até em certas distâncias melhorar. De facto, f:2 é a minha abertura preferida quando necessito uma zona central mais definida; existe aumento substancial da resolução e desaparecimento do halo, mas a suavidade mantém-se. A f:2.8 continua com as mesmas características, com a vantagem de o centro acentuar o detalhe, embora o mesmo aconteça nos planos desfocados, no entanto mantendo-se ainda bastante cremoso.

Resolução, contraste e cor
A plena abertura o detalhe é regular; não sendo mau, não é nada de especial. Creio ser profundamente afectado pelo halo, bastante comum nesta lentes vintage, que desaparece a f:2. Aqui, o detalhe ao centro já está a níveis muito bons, crescendo progressivamente até f:8 onde atinge resoluções comparáveis às lentes atuais.

Tabela comparativa de resolução Minolta MC Rokkor 1.2/58mm

 

Os cantos e as esquinas extremas vão também progredindo na resolução, e a f:8 e f:11 a lente tem níveis excelentes de esquina a esquina, embora se note a influência da difração a f:11 e mais ainda a f:16 (não visível na imagem).

O contraste tem bastante influência na percepção da resolução. Uma lente apresenta teoricamente mais detalhe quanto mais contrastada for, embora sejam parâmetros independentes. Nesta lente, o contraste é suave a plena abertura, aumentando consideravelmente quando se fecha 1 diafragma e atingindo valores elevados já a partir de f:4, apresentando uma renderização agradável nestes valores.

É uma lente com dominantes quentes, de agradável visualização. Tem o típico carácter das lentes Minoltas dos anos 70/80, qualquer coisa como uma transição entre o ar vintage das séries anteriores, às vezes produzindo imagens demasiado quentes, e o look mais limpo e neutro dos anos 90.

Vinhetagem
Tem bastante a plena abertura. Vê-se claramente um spot central mais luminoso a f:1.2 e só a f:5.6 é negligenciável. Mas, paradoxalmente, gosto especialmente da vinheta a plena abertura. Onde muitos fotógrafos vêm um problema aqui, eu vejo uma grande vantagem, pois utilizo esta grande abertura para destacar motivos ao centro ou ligeiramente descentrados. Especial atenção quando adaptada a uma câmara digital (e este é o caso na minha Sony A7), porque o próprio adaptador pode multiplicar este efeito de vinheta, ou até produzir uma vinheta assimétrica. O melhor mesmo é gastar mais algum dinheiro e adquirir um adaptador de boa qualidade.

Vinhetagem Minolta MC Rokkor 1.2/58mm a f:1.2 Vinhetagem Minolta MC Rokkor 1.2/58mm a f:5.6

 

Véu e reflexos
Dependendo do ângulo a que esteja a fonte de luz, mas de forma geral a objectiva aguenta-se bastante bem não produzindo grandes reflexos e com véu reduzido embora presente. No entanto, se a luz for forte e estiver incluída no enquadramento, pode produzir reflexos bastante desagradáveis, por isso convém utilizar um para-sol caso se pretenda uma imagem limpa, podendo mesmo não ser suficiente. Com o ângulo certo em relação a uma fonte de luz, por exemplo o sol, pode-se conseguir efeitos interessantes, sobretudo em video. Veja as diferenças na imagem seguinte, com e sem para-sol na objectiva. O reflexo produzido é bastante interessante.

Minolta MC Rokkor 1.2/58mm sem para sol Minolta MC Rokkor 1.2/58mm com para sol

 

Distorção
Claramente uma distorção em barril que é um pouco acentuada, sem no entanto ser exagerada. No limite de assumir a forma de bigode, o que seria um desastre e limitaria bastante a utilização da lente. Parece-me facilmente corrigível num editor de imagem. Mesmo assim, aceitável para linhas verticais ou horizontais.

Distorção moderada em barril da Minolta MC Rokkor 1.2/58mm

 

Aberração cromática
Aqui esta lente brilha e melhor só mesmo as lentes mais actuais. Notam-se apenas vestígios muito ligeiros de aberração cromática a plena abertura, e praticamente negligenciável quando se fecham os diafragmas. Sem problema tanto nos contra-luzes como nas superfícies metálicas cheias de brilho.

Conclusão

Gosto bastante desta lente. A sua grande abertura permite a utilização não só em interiores pouco luminosos, mas a obtenção de determinados efeitos de desfoque, com um toque vintage à mistura. Certo que a plena abertura não é muito nítida, mas o detalhe está lá, só que abafado pelo halo excessivo. Mesmo assim, e caso a resolução seja mesmo necessária, 1 stop abaixo, e tudo sobe: contraste, nitidez e resolução, mantendo-se o desfocado cremoso, ou até ficando mais acentuado dependendo da distância a que está o motivo.

De uma forma geral é uma lente muito bem conseguida, capaz de fantásticas perfomances, com aberrações muito bem controladas. Sendo bastante sólida devido aos materiais utilizados na sua construção, é também um pouco pesada, nada no entanto comparável às lentes atuais, cada vez maiores. E como é uma focal universal, pode ser utilizada em qualquer tema fotográfico, talvez mais em retrato e paisagem, onde podem ser bem aproveitadas todas as suas virtudes. Esta lente vem substituir a minha Minolta MD 1.4/50mm (lente de qualidade fantástica), não só pela vantagem da abertura ser a 1.2 mas também porque lá para o meio são praticamente indistinguíveis.

Características técnicas (versão MC-X)

Modelo: MC Rokkor 1.2/58mm
Fabricante: Minolta
Ano de fabrico: 1973
Baioneta: Minolta SR
Focal: 58mm
Lentes: 7 lentes em 5 grupos
Diafragmas: f:1.2 a f:16
Número de lâminas: 8
Focagem: desde 0.6m (2ft) a infinito
Diâmetro filtro: 55mm
Para-sol original: D55NC
Peso: 478gr
Dimensões: 70.8mm x 54mm

 

 

* Esta expressão surgiu-me há uns anos atrás, quando a ver documentários da National Geographic o assunto vinha à baila com os Big 5 de África: Elefante, Leão, Búfalo, Rinoceronte e Leopardo. Daí a fazer a analogia foi um saltinho. Diga lá se não encaixa na perfeição?

 

Para ver algumas imagens tiradas com esta Rolleiflex faça uma visita ao Flickr e deixe um comentário.


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