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Escolha o filme adequado

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Escolha o filme adequado

Já tem a câmara (analógica, claro), adquiriu uma lente, juntou-lhe um tripé, colocou tudo dentro dum saco, mas falta o filme, tá confuso e não sabe o que comprar. É aqui que entro eu e este artigo, que vai dar-lhe umas dicas para escolher o filme adequado para a sua câmara e para o tema que pretende fotografar.

Antes de mais convém esclarecer aos mais novos que analógico não tem pixels nem sensores digitais, visores ou touchscreen, tão pouco wi-fi ou bluetooth… É uma coisa mais antiga, inventada lá para o século XIX, em que o filme é uma espécie de tira ou folha com milhões de sais de prata sensíveis à luz, suspensos numa substancia gelatinosa, formando uma imagem latente quando expostos à luz, que depois necessitam de ser revelados em soluções químicas próprias, para finalmente produzirem imagens em negativo a cores ou a preto e branco, ou ainda transparências, mais conhecidas como slides.

ASAS e ISOS

E para entender tudo que vem a seguir, convém perceber que estes sais são tanto mais sensíveis à luz quanto maiores forem os seus cristais. E aqui está a primeira situação que deve assimilar: quanto maior o grão (ou seja, os cristais) mais ele se torna sensível à luz mas também mais visível nas suas imagens. Esta sensibilidade à luz tem valores nominais, uma escala numerada chamada ASA ou ISO que basicamente indica a sensibilidade crescente (ou decrescente) do filme consoante o número: valores pequenos correspondem a fracas sensibilidades à luz, valores grandes a altas sensibilidades.

Sempre que compra um filme, verifique a indicação ASA ou ISO e coloque esse número na máquina, através do selector que se encontra nesta.

Normalmente a escala ASA tem um alcance de 6 a 12.800 nas câmaras analógicas (varia de câmara para câmara, pode ser menos). Para concluir e utilizando duas situações extremas, se está em ambientes com abundante luz (exterior com sol), necessita de um filme com sensibilidade reduzida, entre 50 ASA a 200 ASA; se num interior somente com luz ambiente, um filme de elevada sensibilidade (normalmente entre 400 e 1.600 ASA) é fundamental.

Formatos de filme

Já reparou com certeza que existem enormes variações de filmes, com formatos e tamanhos diferentes. A película é a mesma em todos eles, os tais sais de prata agregados a uma substância gelatinosa, mas as dimensões do suporte é que variam, projectados para diferentes tipos de câmeras.

O mais popular é o 35mm, ou formato 135, introduzido no mercado pela Kodak em 1934. Está indicado para câmaras de 35mm, sejam elas SLR, de telémetro ou compactas. A película está dentro de um cartucho metálico hermético à luz, e quando usado é rebobinado de volta para dentro do cartucho, antes de abrir a câmera – lógico, não é verdade? Encontra-se à venda em cartuchos de 12, 24 ou 36 fotogramas. Produz imagens com um tamanho de 24x36mm.

Verifique e confirme o formato da sua câmara, e escolha o formato de filme mais apropriado.

Outro formato, muito maior que o 35mm e mais vocacionado para o mercado profissional, é o 120 ou 220, conhecido como médio formato. São constituídos por uma tira de filme envolta em papel, enrolados numa bobina de plástico. O tipo de imagens que produzem variam de câmera para câmera (de médio formato), mas formando sempre uma imagem com cerca de 6cm de largura, que é a medida da tira, podendo ser desde 6x45cm até 6x17cm. Este formato é consideravelmente maior que o 35mm, produzindo normalmente imagens com maior riqueza de detalhe, no entanto somente 12 a 16 fotogramas por rolo no formato 120 (24 a 36 no formato 220, menos popular), podendo até ser 8 ou 4 (16 ou 8), consoante o formato da câmara.

Existem ainda os formatos em folha ou placa, conhecidos por grande formato e constituídos por unidades individuais de filme que se colocam em suportes especiais que encaixam nas costas de câmaras de largo formato, normalmente de fole. O tamanho varia entre 9x12cm até 20x25cm (mais raro), sendo o mais conhecido e acessível no mercado, o formato 4’x5′ (10×12,5cm). O filme permanece no suporte depois de exposto, até ser revelado.

Por último, existem ainda os filmes instantâneos, inventados pela Polaroid e conhecidos como filme integral, pois num momento após a exposição mostram a imagem, devido a terem incorporado camadas que imediatamente revelam e fixam a imagem final. Variam em formato e tamanho, desde 35mm até às grandes placas utilizadas por estúdios especializados, sendo no entanto o formato 83x108mm um dos mais populares. Este formato não é convencional e tem menos qualidade que um filme tradicional. Se por uma lado temos acesso imediato à imagem final, por outro esta fica limitada a este tamanho, não sendo possível alterar-la de forma alguma.

Resumidamente, se tem uma câmara 35mm (SLR, telémetro ou compacta) a escolha do seu filme é o formato 135 (35mm). Se quer adquirir uma câmara médio formato (TLR, SLR, telémetro ou ainda de fole), então a escolha é o formato 120. Caso a sua escolha seja uma câmara de fole grande formato (já sei que não, mas fica a orientação) então deve optar por folhas de filme com um tamanho que varia consoante o tamanho da câmara.

Negativo ou slide? Preto e branco ou cores?

Agora que já percebemos o que é um filme, sensibilidades e formatos, é hora de avançar para o tipo de filme. Será melhor negativo ou transparência? A cores ou preto e branco? Bem, depende da situação, do que pretende e da sua experiência.

Comecemos pelas transparências ou slides. A utilização deste tipo de filmes requer alguma experiência, além de material bem calibrado e preciso (máquina, medidores de luz e lentes). Isto porque a latitude é bastante reduzida, ou seja, a margem para erro é muito pequena; uns valores acima ou abaixo fora desta latitude otimizada, e lá se vai a imagem. Normalmente reproduzem as cores de forma mais saturada e fiel, mas tem que se levar em linha de conta as lentes utilizadas, também elas mais ou menos fiéis a cores e contraste, embora com perfis característicos que variam de lente para lente, podendo estas características alterar as expectativas finais.

Um dos problemas deste tipo de películas é a reprodução digital ou a passagem para papel, que tende a elevar demasiado o contraste, queimando as altas luzes e varrendo de detalhe as sombras. A utilização de instrumentos de qualidade é aconselhável, a fim de manter o perfil da imagem original. Além disso, o processo de revelação desta película, conhecido por E-6, é um pouco caro, e se a isto juntarmos os custos do próprio filme, chega a ser um pouco asfixiante, mexendo bastante com a carteira.

Pessoalmente utilizo slides quando quero fotografar uma paisagem colorida ou cheia de detalhes. Escolho normalmente um filme de baixa sensibilidade, 50 ou 100 ISO (acima destes valores prefiro utilizar negativos), e muito provavelmente carrego um pouco na saturação com a utilização de um filtro polarizador. Não dispenso um tripé, para resultados mais precisos.

Os slides são filmes que reproduzem as cores de forma mais real, mas de uma forma geral também mais saturadas. São de baixa tolerância aos erros e convém conhecer bastante bem o equipamento para uma utilização com maior precisão.

Temos também os filmes negativos a cores, utilizados para reproduzirem imagens directamente em papel. Aqui já se pode esticar na exposição ou no erro, mais para cima do que para baixo, convém referir. Ao contrário do digital, estes filmes são muito tolerantes nas altas luzes, mas menos nas baixas luzes, embora com tolerância maior nos dois sentidos que os slides. Convém até abrir 1 ou 2 passos (EV’s) para otimizar as baixas luzes e ir buscar um pouco mais de pormenores. Reproduzem por isso mais detalhes em situações de elevado contraste.

A revelação de negativos é efectuada utilizando química conhecida por C-41, e pode ser facilmente encontrado um laboratório mais ou menos perto de casa, se estiver numa grande cidade – antigamente até qualquer pequena povoação poderia ter um laboratório com revelação C-41. Os custos, tanto de aquisição dos rolos como de revelação, são bastante mais reduzidos que os custos dos slides, chegando muitas vezes a uma fracção destes. Comprar por atacado é a melhor solução, tanto para garantir que sai barato, como para garantir os mesmos resultados no lote.

Este filme é o que mais utilizo nas minhas fotografias casuais, com predominância de retratos e enquadramentos mais fechados, embora pontualmente me possa alargar a outros temas, sempre que ache enquadrado no tipo de imagem que procuro. As sensibilidades andam quase sempre entre 100 e 400 ISO; nunca ultrapasso estes valores. Até aqui o grão é bastante agradável e interessante, começando a derrapar nos valores superiores. Utilizo essencialmente Kodak Estar, Fuji Superia ou Reala na sensibilidade 100 ISO e Kodak Portra 160 ou 400 ISO (eventualmente Fuji NPS ou NPH).

Os filmes negativos a cores têm uma tolerância bastante elevada, reproduzindo com mais detalhe temas de maior contraste, se bem não sejam tão fiéis às cores como os slides. É o filme mais aconselhável para amadores, devido não só aos baixos custos de revelação e preços reduzidos dos rolos, mas também pela maior tolerância ao erro.

Por fim temos os filmes a preto e branco. Ainda são fáceis de adquirir e existem em relativa diversidade, pese o declínio da oferta no mercado, e pode-se comprar a metro se pretender fazer os seus próprios rolos, e assegurar resultados consistentes e precisos de filme para filme, além de ser substancialmente mais barato. São também muito tolerantes aos erros, podendo ser facilmente manipulados na revelação, consoante os resultados que se pretende: mais contrastados ou mais suaves, com grão acentuado ou reduzido, mais leitosos ou limpos, densos ou detalhados.

Existem numerosas fórmulas químicas, tendo cada uma determinadas características que influenciam o resultado final da imagem, inclusive podendo ser revelados com Nescafé, sim esse que temos nas prateleiras da nossa casa. A cafeína é o agente responsável pela revelação, mas o cheiro que este processo deixa na casa é de bradar aos céus…! Se é sensível aos cheiros, esqueça este método ou use uma máscara de proteção!

Os filmes a preto e branco são mais temáticos e direccionados para determinados temas. Muito gráficos, encaixam facilmente num contexto mais artístico da fotografia.

Os filmes a preto e branco estão direccionados para imagens mais criativas, com atmosferas etéreas e misteriosas, em que as relações inter-tonais ou o jogo dos contrastes, evocam uma apreciação diferente na perspectiva do observador quando comparados com os filmes a cores. Basicamente concluo que se a cor não aportar nada de interessante à imagem, salto logo para o preto e branco. Resulta à partida. Até uma fotografia acidental, mal exposta, desfocada ou tremida, pode resultar num momento espontâneo extremamente bem conseguido, algo que os filmes a cores terão mais dificuldade em revelar.

Existem bastantes marcas de filmes a preto e branco no mercado. Fuji, Kodak, Ilfor, Rollei, Formapan, etc., são talvez as mais conhecidas, oferecendo uma variedade significativa de opões. Utilizo essencialmente 3 tipos de filmes: Ilford FP4 (125 ISO), Kodak Eastman Double-X 5222 ( 225 ISO) ou Kodak Tri-X 400 (400 ISO). Cada um destes filmes responde de forma diferente a determinadas situações, e a escolha é o resultado de alguns anos de testes em diversos temas, sendo este o tipo de filmes ideal para o meu método fotográfico. Descobrirá o seu também, mas só depois de queimar bastante filme e pestanas…! A menos que qualquer um lhe sirva, o que pode até acontecer.

O filme mais adequado

Agora que temos um enquadramento geral sobre este tema, é mais fácil entender as aplicações dos filmes no acto fotográfico e o que mais se adequa a cada situação ou tema, ressalvando sempre o facto de que são meras indicações gerais o que aqui se descreve, cabendo ao próprio fotógrafo ir utilizando a sua experiência para cruzar de forma livre e arbitrária todas as variáveis, aquando o momento do disparo. A partir daqui, a experiência reina.

Considere que as indicações seguintes são para filme de 35mm, e a partir daqui pode ter uma ideia não só sobre a utilização de cada filme, mas partir posteriormente para a mudança de formato e os benefícios ou limitações que esta mudança proporciona.

  • 50/100 ISO – qualquer tema para dias bastante ensolarados, em que o detalhe e a redução de grão é fundamental. Fotografia de paisagem pode ser um bom exemplo. Melhor utilizar diapositivos para cores vibrantes e saturadas. Temas com grande contraste, a utilização de filme revelará mais detalhe nas sombras.
  • 160/200 ISO – Para interiores luminosos, fotografia de retrato ou família e também fotografia de rua. Em exteriores com dia encoberto, é a sensibilidade ideal. Não aconselho a utilização de slides nestas sensibilidades, pois o aumento de grão é por vezes desagradável, e se sair fora da latitude, é fotograma estragado. Funciona muito melhor com negativos coloridos ou preto e branco, embora os slides de mais elevada sensibilidade respondam muito bem com abundante luz.
  • 225/400 ISO – Fotografia de rua, desporto ou vida selvagem, para congelar movimento ou permitir profundidade de campo. Também aconselhável para interiores com pouca iluminação (a utilização de objectivas luminosa ajuda), nascer ou por de sol e fotografia criativa, em que o grão dá um toque distinto.
  • 800/1600 ISO – fotografia extrema, normalmente para situações críticas de registo, ou efeitos especiais. É melhor esquecer a cor e utilizar somente preto e branco, embora eu possa estar a subestimar as capacidades destas sensibilidades a cores. Pessoalmente, não utilizo.

Se estas características podem resumir de forma muito geral a utilização de filme, a mudança de formato altera este pressuposto. Quanto maior o formato, mais tonalidades e maior quantidade de detalhe. Não será necessário ampliar tanto a partir do original, pelo que a percepção de qualidade da imagem final aumenta consideravelmente, com diminuição substancial de grão (na realidade não diminui, está menos ampliado).

É um salto qualitativo substancial do formato 135 para 120, e deste para o grande formato. E o que era verdade para o 35mm, pode já não ser para o médio ou o grande formato. Considere por exemplo a utilização de uma película do género T-MAX 3200, com ISO nominal 3200, embora na realidade seja um 1250 puxado. Em 35mm torna-se por vezes incomodativo este grão e a falta de detalhe ou tonalidades insuficientes (não considerando pontos de vista mais artísticos), sendo no entanto bastante aceitável em médio formato, proporcionando imagens bastante agradáveis. Imagine agora em 4’x5’…

Mas, aquilo que serve para um pode não servir para outro. Os gostos e estilos fotográficos de cada um resultarão com toda a certeza em imagens de tal forma criativas, que a ortodoxia de certos paradigmas mais não é que uma afirmação do seu contrário. E a criatividade vive deste confronto, rompendo estas barreiras dogmáticas, e ainda bem que assim é. Viva a criatividade!

Para finalizar, dizer apenas que o relógio está a contar para muitos filmes. Brevemente deixarão de existir muitos dos filmes que ainda estão no mercado (pelo menos a possibilidade é real, dada a tendência do mercado) e só poderão ser adquiridos de forma muito pontual em alguns sítios, como o eBay, mas progressivamente mais caros e raros. Infelizmente esta é uma realidade latente, e se bem que a situação se tenha alterado um pouco no último par de anos, com algumas marcas a relançarem novos filmes ou a consolidarem a produção de filmes existentes, deixa-nos sempre na dúvida, tal a intrusão e penetração do digital no dia a dia. Esperamos que pelo menos continuem a produzir nem que sejam meia dúzia deles, para podermos dar seguimento a esta persistente mania de fotografar em filme.

 


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