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Utilizar filmes expirados

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Utilizar filmes expirados

Poderia ter utilizado o título “Regras para filmes expirados” mas o problema é que… não existem regras para filmes que já expiraram! E isto basicamente porque os compostos de prata que formam a película do filme, perdem sensibilidade e contraste, aumentam o grão e desviam as cores, devido à sensibilidade ao calor e radiação. Para manter conservados os filmes do calor, guardam-se no frigorífico, embora quanto à radiação haja pouco a fazer.

Na altura em que o filme era o único meio para fotografar, um rolo fora de prazo era logo descartado. Até que se descobriu que poderia dar uns resultados interessantes, embora sujeitos aos acaso: cores esbatidas, tonalidades alteradas, atmosferas vintage, véus leitosos, halos de luz, texturas únicas e coisas que tais.

Mas nem todos os resultados de uma vez ou até todos de uma vez… Estes rolos expirados têm essa grande mania de não produzirem cenas consistentes de filme para filme, não se sabendo muito bem como a coisa vai ficar. É jogar um pouco com o acaso e esperar que a divina providência seja condescendente, neste caso a favor da imagem final. Mas quando corre mal, corre mesmo mal e não há nada que possa salvar a imagem, nem mesmo considerando-a uma intervenção artística, daquelas de museu em que o comum dos mortais não entende, só mesmo reservada a mentes mais sensíveis e evoluídas, que não deve ser o meu caso, pois vai logo para o lixo.

Vários filmes expirados, alguns com mais de 30 anos.

 

Voltando ao assunto, é na realidade um dos meus temas favoritos, esta mania disparar com rolos expirados, e uma das particularidades que mais me atrai é precisamente esta imponderabilidade e acaso. Um pouco como lançar a bola num campo de basquete de uma área para a outra, e esperar que a bola entre no cesto. E quando entra é a alegria total, um pouco como quem acerta no rolo incerto: quando sai bem é um regalo para os olhos e um consolo para a alma, pelo menos para a minha alma, passe a singeleza da expressão.

Vivitar 35ES, Orwo CNN 400 ISO, expirado em Abril 1998. De registar o desvio nas cores e o véu leitoso.

 

Então, qual a melhor forma de lidar com esta situação? Como não existe uma receita mágica, o melhor mesmo é descrever uma espécie de guia baseado nas experiências que tenho tido. Até agora tem batido tudo mais ou menos certo, com a excepção de uns rolos Orwo CNN 400 ISO que nunca consegui acertar, apesar de ter adquirido um pack de 20. Quase todos para o lixo à excepção da segunda imagem que ilustra este post, além de mais um par delas que se safaram mais ou menos… Aqui vai:

  1. Prepare-se para gastar dinheiro tanto em filmes como em revelações. Se com eles em condições de utilização já gasta, ao insistir neste tipo de resultados imprevisíveis vai querer repetir até sair qualquer coisa de jeito. Pelo menos comigo isto acontece. É melhor não contar com grandes resultados, assim pode ser que tenha boas surpresas e não mata as expectativas logo à nascença.
  2. Garanta, na medida do possível, que os filmes expirados que adquire tenham estado guardados em ambientes frios, como um frigorífico, por exemplo. Quase de certeza absoluta que estarão em muitas melhores condições que outros guardados numa prateleira na despensa ou armário da sala.
  3. De preferência, adquira filmes de baixa sensibilidade. Quanto maior o ISO mais rapidamente ganham véu e perdem sensibilidade, ultrapassando muitas vezes o tal limite de efeito especial que se pretende. Estes filmes são muito mais sensíveis à radiação do meio ambiente quando comparados com os de baixa sensibilidade.
  4. Ajuda saber que a sensibilidade altera-se com o tempo. Pelo sim pelo não, nunca uso a sensibilidade nominal. Se for a cores, abro 1 EV por cada década fora de prazo, se a preto e branco 1 EV por cada 20 anos fora de prazo. Se tiver a certeza que foi guardado num frigorífico, normalmente não compenso a preto e branco, e abro só 1 EV a cores. A imagem do retrato abaixo é efectuada com um filme Agfa expirado quase 40 anos. Baixei o ISO 3 EV e expus com os dados para esta nova sensibilidade. O resultado foi agradável, mas cheio de manchas (resíduos do papel já agarrados ao filme), que até veio dar um dar da sua graça à imagem. Gostei… venham mais!
  5. Alguns filmes são mais suscetíveis de bons resultados que outros. Se normalmente a preto e branco estes resultados possam ser mais homogéneos, a cores existe uma diferença enorme não só entre marcas, como no próprio filme e até dentro do mesmo lote. Encontrei um pouco mais de resultados uniformes, se assim se pode chamar, nos filmes Reala e Superia da Fuji, embora o aumento do grão seja considerável e inconsistente. Se encontrar um filme cujos resultados se aproximem daquilo que procura, adquira a maior quantidade de rolos que puder. As probalidades de voltar a repetir os resultados são maiores, embora nada esteja garantido.
  6. Exponha sempre com boa luz e de forma correcta, pois estes filmes dão-se mal quando mal expostos. Se for este o caso, o grão será bastante mais aparente e as zonas escuras passarão a ser cinzentas com aquele véu que nem é carne nem é peixe. Várias exposições com compensações de luz será o mais adequado.
  7. Faça várias exposições com distintos EV para o mesmo tema. Basicamente, todos para cima, no sentido de mais luz no filme. Basta ir subindo cada 1/2 EV (diafragma/velocidade). Por ventura se for 1 EV o resultado será praticamente o mesmo, dada a latitude dos filmes. Todos os filmes são mais tolerantes com luz do que sem ela.
  8. Pode, como alternativa, compensar no laboratório em vez de na máquina. Utilizando o filme na sua velocidade nominal, faça as mesmas compensações na altura da revelação, aumentando os tempos consoante a idade do filme. Não se esqueça que o aumento do grão é inevitável nesta situação, multiplicando o este efeito.

 

Rolleiflex 3.5F Planar 75mm, Agfa Isopan ISS 100 ISO, expirado em Janeiro 1979. Contraste suave e marcas do papel na película.

 

Então, mas porquê a utilização de filmes expirados? Bem, a conclusão mais evidente, apesar do paleio todo do post além dos resultados que até podem ser interessantes,  é… economia! Sim, sai muito mais barato e às vezes os resultados não diferem muito quando em boas condições de conservação, dando aquele toque da diferença. Uma película fora de prazo de 35mm, por exemplo, pode custar 2€ ou até menos. Fazendo as contas, a carteira agradece. Pode no entanto existir o reverso da medalha, quando deliberadamente se procuram resultados e eles não aparecem. Aí é melhor parar para pensar se efectivamente compensa, pois perdendo o controle, é tempo e dinheiro deitados fora. Outra razão, são os tais efeitos especiais, aleatórios claro. Pode sair, pode não sair! E como sempre digo, o melhor é não contar com nada e esperar um desastre total. Assim nunca fica desiludido.

Minolta XD-7 Rokkor MD 2.8/135mm, Fuji Superia 100 ISO, expirado em Janeiro 2003. Desvio nas cores evidentes e ligeira acentuação de grão.

 


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