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Em análise: Zeiss Super Ikonta IV

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Em análise: Zeiss Super Ikonta IV

Admito, estas câmaras de fole não são para qualquer um… São grandes, pesadas, de engenharia antiquada e têm aquele aspecto que dali já não sai mais nada…! E nada fáceis de fotografar para quem não pisa estes terrenos. Também tinha essa ideia, antes de não ter ideia nenhuma acerca deste material antigo. Uma câmera leva à outra, um formato descamba no seguinte, e passo a passo fui-me interessando por estas máquinas, achando-as agora absolutamente deslumbrantes, vintages quanto baste – nada como um par destas abertas na sala para impressionar os amigos – e capazes de imagens tão fantásticas como outra qualquer, com essa grande vantagem de ser médio formato.

Máquinas de fole existem em todos os formatos e para todos os gostos. As grandes casas de fotografia – Zeiss Ikon, Voigtlander, Agfa, Kodak, entre muitas outras – fabricavam modelos uns a seguir aos outros, outros a competir com os uns…! Sorte a nossa… E dos nossos avós também. Deixaram de ser produzidas nos finais dos anos 50, quando o 35mm começou a ocupar aquela faixa de mercado em que não deixa de haver dúvidas quanto às novas tendências. No entanto, os últimos modelos atingiram níveis de precisão, operacionalidade e fiabilidade tais que ainda hoje, e com a sorte de se encontrar um modelo recuperável, são capazes de fornecer imagens que rivalizam com qualquer câmara analógica mais recente.

Médio formato no bolso

A Super Ikonta IV da Zeiss Ikon, também conhecida por 534/16 da linha Ikonta, é o pináculo destas câmaras de fole e telémetro, tanto em design e características técnicas, como operacionalidade e… peso… Sim, cabe num bolso, grande é verdade, mas o bolso descai, tal a robustez da besta; pesa cerca de 700gr de metal sólido e bem maquinado, ideal também como arma de arremesso…! É conhecida a sua utilização na WWII e em ambientes hostis, mantendo a operacionalidade intacta e precisa, características muito apreciadas por fotógrafos profissionais. Nada melhor que estes ambientes para provar a natureza consistente, resistente e resiliente destas câmeras, embora tenha sérias dúvidas quando aberta.

Mas não é só robustez e engenharia de precisão. Por alguma razão foi e é considerada o pináculo da evolução das câmaras de fole. Senão vejamos algumas das suas características técnicas:

  • Possui um telémetro acoplado, ou seja, enquanto foca pelo visor está a focar a objectiva no mesmo plano, não tendo que transmitir o valor da focagem para a escala da objectiva. A operação de focagem passa a ser um acto único e a precisão é milimétrica, não estando sujeita a interpretações entre valores de escala.
  • Deixou de ter a famosa janela vermelha nas costas da tampa para verificar o avanço do filme para o enquadramento correcto, devido ao novo transporte automático do filme, com sistema numérico de contagem. No seu lugar possui uma simples janela somente para verificação da existência de filme no interior da câmera.
  • Impede a dupla exposição com um mecanismo de bloqueio de disparo. Este só é libertado após o avanço do filme e armamento do obturador.
  • Inclui célula fotoeléctrica de selênio, embora desacoplada. Com o tempo tem tendência a deixar de funcionar, mas ainda se encontram modelos completamente operacionais, caso da minha.
  • Inclui (esta câmera) um obturador Synchro Compur capaz de atingir 1/500 de velocidade máxima, de elevada precisão, fiabilidade e fácil intervenção em caso de avaria. Nos modelos mais baratos pode trazer de origem um obturador Prontor.
  • Está equipada com uma objectiva 3.5/75mm Tessar (pode vir equipada com uma triplete de inferior qualidade, a Novar 3.5/75mm), objectiva famosa que normalmente equipava câmeras topo de gama.

Todas estas características estão condensadas num modelo de design apelativo, sóbrio e elegante, num corpo surpreendentemente compacto para a época, considerando que o formato do filme é 6×6.

Operacionalidade

A utilização deste tipo de máquinas, desta em particular, obedece a um ritual mecânico preciso. É necessário ter em atenção um conjunto de gestos que passem a ser uma segunda natureza para o utilizador, a fim de tornar mais eficiente a operacionalidade da mesma. Ao carregar o filme, da forma mais convencional possível e desta vez sem ser necessário olhar para uma janela vermelha, temos que dar umas 30 voltas ao manípulo até estabilizar na frame número 1 – o mecanismo de enrolamento pára. Depois de enquadrar, focar, colocar a velocidade e abertura adequadas, arma-se manualmente o obturador na alavanca para o efeito. Click… Já está!

É hora de avançar de novo. Caso se tenha esquecido, não disparará! Aqui está o mecanismo de prevenção da dupla exposição. Terá de dar mais umas quantas voltas no avanço do filme, até o mecanismo bloquear de novo. Estamos na frame seguinte, neste caso a 2. Enquadrar, focar, velocidade e abertura, armar obturador e click outra vez. E assim até à 12ª, que poderá visualizar numa janela minúscula ao lado do manípulo de avanço do filme.

Uma vez assimilada esta mecanização do acto fotográfico, a câmera torna-se agradável de utilizar e caso seja um fotógrafo com olho, a obtenção de bons resultados poderá ser uma agradável surpresa. Afinal temos uma Tessar a produzir imagens no formato 6x6cm.

Aspectos a considerar

Antes de adquirir uma máquina destas, convém dar uma espreitadela ao fole e tentar perceber se tem fugas de luz. Os foles são o ponto fraco destas máquinas, não só pela natureza dos seus materiais, como pela construção dos mesmos; repetidas movimentações de abertura e fecho provocam stress nas costuras e eventualmente acabam por ceder. Se bem que os foles destas Super Ikontas sejam considerados dos melhores entre as existentes, deterioram-se com alguma facilidade, principalmente se vierem de mãos descuidadas. Não são difíceis de consertar, no limite a aquisição de num novo é a solução, mas a chatice disto e o gastos implicados começam a tornar o valor final algo incomportável, e o melhor mesmo é procurar uma que esteja com o fole em bom estado.

 

Outro aspecto a considerar é o espaçamento entre as diferentes imagens no negativo. É necessário um pequeno truque para prevenir a sobreposição de negativos, uma daquelas coisas que estraga logo imagens aos pares. Este pequeno contra-tempo tem a ver com a espessura do papel que enrola o negativo, que naqueles tempos idos anos era um pouco mais grosso. E as câmeras foram construídas tendo em conta as circunstâncias da altura, não é verdade? Hoje, como forma de economia talvez mas também devido aos avanços tecnológicos, este papel é consideravelmente mais fino, pelo que o espaçamento entre frames torna-se perigosamente reduzido provocando maior parte das vezes sobreposição de imagens. A solução? Colar um par de post-tis no início do rolo colado ao papel, antes de começar a enrolar o filme. O aumento de volume (escasso é verdade, mas suficiente) irá provocar o espaçamento adequado evitando assim sobreposição de negativos. Aconselho um rolo teste para evitar surpresas.

Como curiosidade, vê aquele ponto vermelho entre f8 e f11 no anel de aberturas? E aquele situado entre os 5m e 15m no anel de focagem? Então coloque os 2 como opções de abertura e focagem, e tem uma máquina que utiliza o ponto otimizado da ótica com tudo focado entre os 2m e o infinito…! Nada mal para fotógrafos de rua. E já agora, nunca coloque 1/500 de velocidade com o obturador armado, se não quiser armar também um problemazito. Como norma de bons costumes, arme sempre o obturador no último momento. E não se esqueça que o temporizador só funciona se o obturador estiver armado, em jeitos de uma coisa ao contrário da outra… Não deixe a máquina guardada com o obturador armado. É um péssimo hábito, a não ser que queira deliberadamente enfraquecer o mecanismo de disparo.

Altos e baixos

Esta câmera tem inúmeras qualidades. Predominam talvez os excelentes resultados produzidos pela sua objectiva, da qual sou um fã confesso, e a sua portabilidade. Não que utilize esta máquina como ferramenta indispensável dos meus projectos – para isso tenho as minhas Rolleiflex – mas considero que ocupa aquele lugar de portabilidade e descrição que muitas vezes são necessários em ambientes mais intimistas, onde é exigida qualidade, seja em ambiente pro ou amador casual. Coloco-a num canto do saco fotográfico, onde está sempre preparada para um disparo complementar ou uma saída mais discreta. Os resultados falam por si…

Por outro lado, a fragilidade do fole quando aberta a máquina e a atenção ao seu manuseamento, deixam-me sempre em cuidados…! Robusta por fora, mas frágil quando aberta. Quedas ou pancadas inadvertidas e lá se vai o fole. Nunca é de mais um manuseamento atento e cuidado para evitar desgraça maior.

Para mim o único problema desta máquina, que pode até ser considerado um valente senão para os freeks do enquadramento (eu), é o minúsculo, apertado, esquisito e impreciso visor… Que raio, máquina tão bem construída e parece que estamos a olhar pelo buraco de uma agulha… Podiam ter feito um pouco melhor. Irrita de tal forma que para mim só enquadramentos centrais. Tudo que seja ir à procura dos limites é para esquecer, só mesmo adivinhando. Fora isto, são mais os altos que os baixos.

Em jeitos de resumo

Viu uma? Compre…! É preciso dizer mais? Não se consegue em lado nenhum tanta qualidade condensada num pacote tão pequeno, considerando que utiliza filme 120. O problema é o preço, e o valor que atingem chega a ser um absoluto disparate. Espere que com calma encontra alguma a um valor acessível, que considero ser mais da ordem dos 150€/200€ do que dos 400€ que normalmente pedem. Não se esqueça que em cima disso frequentemente é necessário gastar mais algum para pôr a funcionar comme il faux.

Ultrapassada essa coisa do preço, fica com uma máquina que considero ser uma das mais atractivas e melhores fabricadas. Tem o equilíbrio adequado entre robustez, portabilidade e qualidade de imagem. Tem algumas restrições, é verdade, mas uma vez contornadas não deixa de ser uma peça que só está limitada à falta de criatividade de quem a utiliza. Fora isto, a potencialidade é infinita. Afinal é uma Zeiss…

Características técnicas

Modelo: Super Ikonta IV ou 534/16
Marca: Zeiss Ikon AG Stuttgart
Ano de fabrico: entre 1956 e 1960
Corpo: metalizado, com fole em pele; cobertura em pele negra sintética.
Obturador: Synchro Compur, 1/500 a 1s + B
Lente: Carl Zeiss Tessar 3.5/75mm, f:3.5 a f:22
Filtros: slip-on 32mm (A32), 35.5 de rosca
Filme: filme 120, 12 imagens formato 6x6cm
Célula: de selênio, desacoplado, Asa 6 a 640
Visor: telêmetro com prismas e lente movível
Focagem: na objectiva, acoplada ao telêmetro
Temporizador: sim, até 12s
Sincronização flash: posições X e M, com socket no obturador
Peso: aproximadamente 700gr
Outras características: contador exposições 1 a 12, prevenção múltipla exposição, janela verificação de filme.


Fotografias Zeiss Ikon Super Ikonta IV. Mantenha o rato pressionado e mova-o para a esquerda/direita.

 

Mais imagens Zeiss Ikon Super Ikonta IV no Flickr. Veja aqui.


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